ENFIM, O CISMA

Nota preliminar: Este artigo está imbricado com o artigo anterior. Deve ser lido analiticamente e não emocionalmente.
O Editor.

ENFIM, O CISMA
Dom Lourenço Fleichman OSB

Em 1976, amigos franceses enviaram a Gustavo Corção notícias de um bispo italiano que escrevera para seus padres e fiéis denunciando o comunismo. Os amigos que enviaram a auspiciosa notícia ao jornalista e escritor católico estavam entusiasmados com a novidade, achando que aquela reação podia significar uma mudança de ares na Igreja.
Gustavo Corção escreveu sobre o fato um artigo em que mostrava aos seus amigos e leitores que o entusiasmo não era cabível. Antes de mostrar quão superficial era a crítica do bispo ao comunismo, Corção explicou:
“Depois do que escrevi no artigo da semana passada sobre o maior escândalo do século, e sobretudo depois de séculos de pronunciamentos da Igreja, eu só posso ter como séria a declaração anticomunista de um bispo quando vier acompanhada de um atestado provando que seu nome estava incluído entre os dos 400 padres conciliares que, em vão, tentaram erguer um baluarte ao avanço comunista, e não entre os nomes dos 3.600 que categoricamente recusaram esse tipo de resistência ou combate”[1].
Estamos assistindo, quarenta anos depois, a uma situação semelhante, por ocasião do Sínodo Extraordinário sobre a Família, que se realizou em Roma, em outubro de 2014.
Assim como os amigos franceses de Gustavo Corção eram “conservadores”, sem no entanto perceberem com a devida profundidade o que estava em jogo, hoje, muitos “conservadores” analisam de modo superficial o Sínodo que acaba de se realizar, deixando de lado o que há de essencial no drama que vivemos na Igreja.
O Cisma oculto
Comecemos, pois, pela principal realidade que importa manter viva e acesa em qualquer análise que se faça do Sínodo: há 50 anos atrás um Cisma monumental foi introduzido na Igreja, realizado por um imenso grupo de bispos que se uniu em uma nova Igreja, Anti-Igreja, Contra-Igreja, ou A Outra, como chamava Gustavo Corção, sem abandonarem a hierarquia católica, podendo assim agir de modo mais eficaz sobre os ingênuos católicos do mundo todo.
Em toda parte levantaram-se os católicos fiéis, na época, para denunciar os erros da nova pastoral introduzida no Concílio Vaticano II. Porém, pouco a pouco, a hierarquia os silenciou, quer pela falsa obediência, quer pelo ostracismo e a marginalidade.
Já não tinham voz ativa, e quando denunciavam os erros do pós-Concílio, não lhes davam crédito. Os papas que fizeram o Concílio, João XXIII e Paulo VI, repetiam que estavam apenas tratando da “pastoral”, abrindo as portas da Igreja aos novos tempos. E afirmavam, como hoje, não tratarem de dogmas e da doutrina. Esta é a segunda característica do cisma. Além de ter sido realizado por membros da própria hierarquia, acalmavam os conservadores com essa palavra de ordem: “pastoral”.
Dois resultados ou conseqüências se seguiram ao Concílio. O primeiro, imediato, rápido, fulminante: em poucos anos conseguiram introduzir tamanha quantidade de reformas nos ritos e costumes que logo já ninguém se lembrava como era a vida e a liturgia católica anterior ao cisma. O segundo, mais lento, penetrando mais profundamente, atingindo o âmago do catolicismo, seu dogma e sua doutrina, foi sendo instalado nas almas por livros, conferências, sermões, cursilhos, universidades. E a fé desapareceu das inteligências. Tudo foi transformado, deformado, destruído.
Partindo pois, de uma nova prática, de nova “pastoral”, facilmente aceita pelos incautos, chegaram à modificação da doutrina que afirmavam não querer mudar.
É conhecida a frase do Cardeal Kasper que reconhece o método utilizado para enganar a Cúria Romana, em 1962: no Concílio, não falaram de doutrina, apenas mudaram a práxis; introduziram uma super-heresia sem pronunciar uma única heresia, apenas inventando nova atitude, nova prática, nova moral. E isso torna uma passagem de S. Paulo verdadeira profecia: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema”[2].
Kasper afirmou, em fevereiro de 2014, que o Sínodo deveria fazer com relação ao casamento, o que o Concílio fizera eficazmente com o catolicismo. Sem mudar a doutrina do casamento indissolúvel, sem tocar nesse assunto, mudar a mentalidade, a atitude dos padres e bispos diante dos divorciados, a ponto de liberar a comunhão sacramental para eles. O cisma oculto começava a ficar evidente.
O Cisma revelado
Ao final da primeira semana de discussões no Sínodo, o cardeal Erdö, relator, publicou um primeiro texto que serviria de base de discussões e emendas durante a segunda semana. Este documento tinha como função causar o choque inicial, quebrar parâmetros, assustar os mais conservadores, e sobretudo, mover a opinião pública, a qual se manifesta de modo mais explícito pela mídia, porém está presente também, de modo mais geral e diluído, no consabido, na impressão que fica na cabeça das pessoas e que perdura como se fosse a posição oficial da Igreja.
Não é de hoje a manifestação entusiasmada, por parte da imprensa, da radical mudança de atitude da Igreja (leia-se, dos homens da Igreja) que se opera desde a eleição do papa Francisco.
A primeira manifestação pública desse “outro” evangelho foi dada no avião em que o papa voltava do Rio de Janeiro, após a triste JMJ, em 28 de julho de 2013:
“Se uma pessoa é gay e procura o Senhor de boa vontade, quem sou eu para julgá-la?” Não há como evitar a aproximação dessa incrível afirmação feita pelo papa, com a frase do Relatório do Card Erdö: “As pessoas homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã.” Foi apenas um passo adiante.
Nessa mesma ocasião, diante dos jornalistas, no avião, o papa afirmou que seria preciso prever uma nova “pastoral” quanto à recepção dos sacramentos por casais de divorciados. Na época não se podia perceber, mas hoje vemos que já era o Sínodo sendo anunciado. Devemos constatar também que o papa parece ter certa pressa. O que ele insinua num dia, põe em prática poucos meses depois.
Em outubro de 2013 o papa anunciava a convocação do Sínodo Extraordinário, para outubro 2014, e que seria completado pelo Sínodo Ordinário, em outubro de 2015. Um questionário sobre a questão da família, divórcio, homossexuais etc. foi enviado aos bispos do mundo todo. Aqui no Brasil esse questionário virou uma espécie de plebiscito, sendo distribuído inclusive entre os fiéis, em algumas dioceses. O papa cercou-se de certos bispos e cardeais escolhidos a dedo, para levar adiante a nova “pastoral”, ou seja, uma nova atitude moral sem que se tocasse no assunto doutrinário.
Chega a impressionar a insistência com que os bispos reafirmaram, ao longo do Sínodo, que o papa Francisco não tratara, hora nenhuma, da doutrina do casamento. Fizeram questão de ecoar a frase do Card. Kasper ao longo do Sínodo. Vejam! Não mudamos nada, não tenham medo, estamos apenas tratando de “pastoral”.
Repetia-se a tática de sucesso que fez desaparecer a fé católica da face da terra. E ninguém se preocupava com isso.
O Circo pegou fogo
O relatório inicial do Card. Erdö pôs fogo no circo. A imprensa entendeu a jogada, e soltou seus fogos de artifício. Era para isso que ele servia. Ninguém pensava em que um texto como aquele fosse aprovado pelos bispos sinodais. Não era essa a intenção.
Tampouco estava em jogo um combate entre “conservadores” e progressistas, no sentido de se chegar a um texto aceitável, como Relatório final. Isso foi feito, é verdade, mas já não importava. O grupo liderado pelo papa Francisco sabia muito bem que o papel do Sínodo Extraordinário já tinha sido realizado. O circo já virara cinzas, e ninguém parecia se dar conta disso. A única voz a declarar essa verdade foi do Cardeal da Africa do Sul, Wilfrid Napier: “A mensagem foi dada: é isso que diz o Sínodo, é isso que diz a Igreja. Não há mais correção que sirva, só poderemos tentar limitar o prejuízo”. Mas ao lúcido bispo de 2014 devemos perguntar: o que o senhor fez para “limitar os prejuízos” quando o novo catecismo, como fruto do Concílio, modificou a doutrina sobre os fins do matrimônio? Os mais lúcidos e “conservadores” são cúmplices do verdadeiro cisma que dura já 50 anos.
Daí a insistência com que alguns bispos afirmaram, ao longo da semana, que não havia um racha dentro do Sínodo. Todos estão unidos! O próprio papa o assinalou no discurso final: “Tantos comentaristas, ou pessoas que falam, imaginaram ver uma Igreja em atrito, onde uma parte está contra a outra, duvidando até mesmo do Espírito Santo, o verdadeiro promotor e garante da unidade e da harmonia na Igreja.”
Parece mentira, mas não é. De fato, o que une esses bispos e cardeais continua unindo-os; o que os divide é um fator que, em si mesmo, faz parte da própria união: essa nova Igreja de Vaticano II é evolutiva, é “pastoral”, é dinâmica. Tendo deixado de lado (abandonado) qualquer menção efetiva ao dogma católico, só lhes interessa o movimento, as vagas, a dinâmica de uma Igreja “fundada sobre rodinhas”, na feliz expressão de Gustavo Corção.
O papa e os bispos sabem que esse movimento “pastoral” tem seu ritmo próprio. A eles não importa o estágio alcançado hoje, basta saberem que a evolução se fez, e que ela continuará a mover a tal “pastoral”. Eis o que afirmou o papa Francisco no discurso final:
“Eu poderia tranqüilamente dizer que – com um espírito de colegialidade e de sinodalidade (?) – vivemos realmente uma experiência de “Sínodo”, um percurso solidário, um ‘caminho juntos’.”
Não deixa de ser também chocante o fato do papa afirmar que está ali apegado à doutrina do sacramento do Matrimônio indissolúvel. A tática proposta pelo Card. Kasper em fevereiro se realiza plenamente. No momento mesmo em que toda a moral católica voa em frangalhos, o papa diz que não se toca no dogma. Como se poderia manter intacta uma doutrina quando se propõe subverter a prática e a moral decorrentes dessa mesma doutrina?
Essa é a evolução esperada, a dinâmica preparada cuidadosamente e levada a cabo nessa etapa intermediária da destruição da fé. O Relatório final fica oferecido como um véu “conservador”. Mas o que vai movimentar as discussões, reuniões e preparativos para o Sínodo de 2015 é a brasa ainda quente do circo destruído: a comunhão para os divorciados e a recepção dos homossexuais na vida da Igreja.
Revolvendo as cinzas
Agora voltemos à consideração de Gustavo Corção sobre o bispo italiano que, em 1976, resolveu alertar seus fiéis contra o comunismo.
Os “conservadores” espalhados em blogs e sites acompanharam passo a passo a semana que seguiu à publicação do Relatório inicial do Card. Erdö. A impressão que se tinha era parecida com a de uma corrida eleitoral, todos torcendo pela reviravolta, todos apoiando os bispos mais “conservadores”, e dando vivas de alegria com a suposta vitória desses falsos tradicionais.
Todos acompanharam os detalhes dos diversos grupos de estudo, aplaudindo os relatórios destes, criticando e denunciando o grupo do papa, que, aparentemente, sofria diante da falsa perplexidade dos próprios bispos por ele convocados.
Chegamos assim ao Relatório Final, onde já não se fala de dar a comunhão aos divorciados, ou de receber os valores dos homossexuais dentro das paróquias. Enaltece o amor, a união, a fidelidade, o cuidado com os filhos, dando a impressão de que a doutrina católica venceu a heresia. E as palavras de alívio aparecem em blogs e artigos.
O que não se lê em lugar algum é a crítica devida a todos esses bispos e padres mais “conservadores”. Quem são eles? Em que doutrina eles acreditam? Ora, todos eles são filhos do Vaticano II. Todos eles aceitaram os desmandos desse falso Concílio que introduziu o maior cisma que a Igreja já conheceu. Aceitam tranqüilamente a missa nova, mais próxima de um culto protestante do que do Sacrifício da Cruz. Aceitam o falso ecumenismo, afirmando com João Paulo II e os demais papas do pós-concílio, que todas as religiões levam para o céu; aceitam a liberdade religiosa, como se religião fosse opção e não obrigação de todos os homens de cultuar a Deus do modo como Ele próprio nos revelou.
E, finalmente, aceitam a inversão dos fins do casamento, grave deturpação da doutrina católica introduzida tanto no novo Direito Canônico quanto no novo Catecismo. Ora, essa inversão na doutrina católica do casamento é aceita por todos os bispos e cardeais. Como é ela que conduz à nova “pastoral” de Francisco, segue que os bispos “conservadores” são cúmplices daquilo mesmo que parecem combater no Sínodo.
Enfim, o Cisma
Então, o quê? De que vitória se trata? Os vitoriosos ostentam como troféu a doutrina ambígüa do Vaticano II. Ela não serve para o católico; ela é falsa, falsificadora da realidade objetiva do casamento; ela retira do casamento a força da realidade que sempre presidiu à formação da família. A Igreja sempre ensinou que o fim primário do casamento é a procriação, justamente porque não poderia perdurar por toda a história da humanidade uma instituição familiar fundada em algo tão subjetivo e vacilante quanto é o amor. Ao afirmar dogmaticamente que são os filhos, e mais do que os filhos, o próprio ato procriador o fim primário, essencial, principal, do qual os outros dois dependem como subordinados, a Igreja finca um mastro que sustenta as velas da nau familiar, permitindo que ela atravesse o mundo no meio das piores tempestades.
Toda a vida do amor conjugal gira em torno dos filhos, mesmo quando, por infelicidade, eles não são gerados. O amor mútuo sendo um fim subordinado, secundário, não é ausente da doutrina católica sobre a família. Mas ao ser elevado a fim principal, desmorona-se a família. Porque o amor, mesmo considerado de modo racional, menos passional, necessariamente passa pela subjetividade de cada um. E eis o casamento sujeito às variedades dessa vida, como costuma chamar a Igreja aos altos e baixos da nossa condição. Por mais que se exorte o casal a guardar o vínculo, a proteger os filhos, a se sacrificar, ele só conseguirá vencer todas as crises e tentações se tiver um motivo forte e total, algo que esteja acima da vida e da morte. Isso só se consegue com um objeto que esteja fora do homem, e que não seja o seu próprio sentimento vacilante e volúvel.
Mas a abertura ao mundo provocada pelo Concílio Vaticano II estabeleceu uma filosofia de vida subjetiva, onde já não se conhece mais as razões profundas dos nossos sofrimentos, onde cada qual procura satisfazer suas paixões e confortos. Ao mesmo tempo que a linguagem socialista tomou conta do discurso de padres, bispos e papas, querendo fazer tudo girar em termos de “social” e de “comunidade”, eles abandonaram o ensinamento tradicional que nos faz parte de um todo, e que, por isso, devemos viver, em primeiro lugar, pelo bem comum, quer seja na cidade, na vida política, quer seja na casa, no todo da família, do qual somos apenas uma parte.
Mas Paulo VI era discípulo de Jacques Maritain, e é a sua filosofia personalista que vai presidir essa mudança, alegando que cada pessoa é um ser à parte, totalizado em si mesmo, fechado em si mesmo, provocando o desprezo pelas instituições que estão acima de nós, a Igreja, a Pátria e a Família. A partir do Concílio e de Paulo VI, a vida comum, em família ou em política é apenas uma escolha de bom escoteiro, sem vínculo com a realidade profunda do homem animal político.
Por isso o casamento moderno nada mais é do que um somatório temporário de interesses pessoais, movido pela paixão superficial que atrai os corpos no amor carnal. É impressionante o vazio dos sermões de casamento oriundos da drástica mudança da doutrina do casamento operada pelo Concílio. Como o amor individual, personalista, foi colocado no lugar principal, vemos os padres tentando falar sobre o amor e sendo empurrados, em sua mediocridade, a tratar de modo vulgar um momento tão importante quanto seja a fundação de uma nova família, célula da sociedade bem constituída.
A solução deste grave erro está no retorno à doutrina perene da Igreja. Está no abandono das falsas filosofias e das doutrinas produzidas por um Concílio fundamentado em base tão pouco católica.
Por outro lado, a lógica do erro imperceptivelmente introduzido na vida dos homens pelo pós-concílio, querendo seguir o burburinho do mundo, estabelecendo tudo no amor, é chegarmos ao amor invertido homossexual, é chegarmos ao divórcio e à comunhão dos divorciados. Porque, se tudo se baseia no amor e tudo parte da pretensa “dignidade” da pessoa humana, então cada um seguirá a sua consciência, de acordo com seus próprios critérios subjetivos, ou seja, segundo o seu amor. Ou, utilizando a linguagem pervertida de hoje, segundo sua opção sexual. E ninguém poderá contestar esse rei e esse deus criado pelo próprio Concílio Vaticano II: o novo homem, o novo humanismo, como aparece claramente no discurso de encerramento do Concílio, em dezembro de 1965.
Isso é que precisa ser entendido: o que o papa Francisco quer é coerente com a falsa doutrina de Vaticano II. O que é incoerente é os bispos e cardeais acharem que são muito “conservadores” só porque consideram que a evolução ainda não chegou nesse ponto, ou que não podemos ir rápido demais.
Por isso não podemos nos escandalizar com a quebra dos parâmetros realizada por esse Sínodo. O que nos escandaliza é a doutrina perversa de Vaticano II, é a inversão dos fins do casamento aceita alegremente por todos. O que nos escandaliza é o cisma contrário à Igreja Católica impetrado por esses mesmos papas que recebem do papa atual a canonização inválida dessa Outra Igreja.
O que nos escandaliza, enfim, é o escândalo sentido e choramingado por esses “conservadores” incoerentes, inconsistentes, moles e afeminados na defesa da verdade.
[1] O Globo, artigo Um Rebate Falso, 18/3/1976
[2] Gal. 1, 8-9

Fonte: http://permanencia.org.br/drupal/node/5162

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TENDÊNCIA HERÉTICA NA IGREJA CATÓLICA

Resistir à tendência herética. O relatório do Cardeal Erdö elimina com um só golpe o pecado e a lei natural.

Por Roberto de Mattei – Il Foglio, 15-10-2014 | Tradução: Fratres in Unum.com – Eliminado o sentido do pecado; abolidos os conceitos de bem e de mal; suprimida a lei natural; arquivada qualquer referência a valores positivos como virgindade e castidade. Com o relatório apresentado em 13 de outubro de 2014 no Sínodo sobre a família pelo Cardeal Péter Erdö, a revolução sexual irrompe oficialmente na Igreja, com conseqüências devastadoras para as almas e a sociedade.

A Relatio post disceptationem elaborada pelo Cardeal Erdö é o relatório resumitivo da primeira semana de trabalhos do Sínodo e aquele que orienta as suas conclusões. A primeira parte do documento pretende impor, com uma linguagem derivada do pior ‘Sessenta e oito’ [NdT: Revolução anarquista da Sorbonne, de maio de 1968], a “mudança antropológico-cultural” da sociedade como um “desafio” para a Igreja. Diante de um quadro que da poligamia e do “casamento por etapas” africanos chega à “prática da convivência” da sociedade ocidental, o relatório encontra a existência de “um difuso desejo de família”. Nenhum elemento de avaliação moral está presente. À ameaça do individualismo e do egoísmo individualista o texto contrapõe o aspecto positivo da “relacionalidade”, considerada um bem em si, sobretudo quando tende a transformar-se em relação estável (nos. 9-10).

A Igreja renuncia a emitir juízos de valor para limitar-se a “dizer uma palavra de esperança e de sentido” (no. 11). Afirma-se em seguida um novo surpreendente princípio moral, a “lei da gradualidade”, que permite colher os elementos positivos em todas as situações até agora definidas como pecadoras pela Igreja. O mal e o pecado propriamente não existem. Existem apenas “formas imperfeitas de bem” (no. 18), segundo uma doutrina dos “graus de comunhão” atribuída ao Concílio Vaticano II. “Tornando-se portanto necessário um discernimento espiritual em relação às coabitações, aos matrimônios civis e aos divorciados recasados, compete à Igreja reconhecer que a semente do Verbo se espalhou além das fronteiras visíveis e sacramentais” (no. 20).

O problema dos divorciados recasados é um pretexto para fazer passar um princípio que mina dois mil anos de moral e de fé católica. Após a Gaudium et Spes, “a Igreja se volta com respeito para aqueles que participam em sua vida de modo incompleto e imperfeito, prezando mais os valores positivos que guardam, do que as limitações e as faltas” (ibidem). Isso significa que cai todo o tipo de condenação moral, porque qualquer pecado passa a constituir uma forma imperfeita de bem, um modo incompleto de participar na vida da Igreja. “Nesse sentido, uma nova dimensão da pastoral familiar hodierna consiste em entender a realidade dos casamentos civis e, feitas as devidas diferenças, também das coabitações” (no. 22).

E isso sobretudo “quando a união alcança uma notória estabilidade através de um vínculo público, e caracteriza-se por profunda afeição, de responsabilidade em relação à prole, da capacidade de resistir nas provas” (ibid). Com isso fica de cabeça para baixo a doutrina da Igreja segundo a qual a estabilização no pecado através do casamento civil constitui um pecado mais grave do que a união sexual ocasional e passageira, porque esta última permite com mais facilidade o retorno ao caminho certo. “Uma sensibilidade nova na pastoral hodierna consiste em entender a realidade positiva dos casamentos civis e, feitas as devidas diferenças, também das coabitações” (no. 36).

A nova pastoral impõe, portanto, o silêncio sobre o mal, renunciando à conversão do pecador e aceitando o status quo como irreversível. São estas que o relatório chama de “opções pastorais corajosas” (ponto 40). A coragem, ao que parece, não está em opor-se ao mal, mas em adaptar-se a ele. As passagens dedicadas ao acolhimento às pessoas homossexuais são as que pareceriam mais escandalosas, mas constituem a consequência lógica dos princípios acima expostos. Até o homem da rua compreende que se ao divorciado recasado é possível aproximar-se dos sacramentos, tudo é permitido, a começar pelo pseudo casamento homossexual.

Nunca, realmente nunca, sublinha Marco Politi no “Il Fatto” de 14 de outubro, ele tinha lido, em um documento oficial produzido pela hierarquia eclesiástica, uma frase do gênero: “As pessoas homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã.” Seguida de uma pergunta dirigida aos bispos do mundo inteiro: “estamos em condições de acolher essas pessoas, garantindo-lhes um espaço de fraternidade em nossas comunidades?” (no. 50). Embora não equiparando as uniões entre pessoas do mesmo sexo ao casamento entre homem e mulher, a Igreja se propõe “elaborar maneiras realistas de crescimento afetivo e de maturidade humana e evangélica integrando a dimensão sexual” (no. 51). “Sem negar os problemas morais conexos às uniões homossexuais, nota-se que há casos em que o suporte mútuo com vistas ao sacrifício constitui um apoio precioso para a vida dos parceiros” (no. 52).
Nenhuma objeção de princípio vem expressa em relação à adoção de crianças por duplas homossexuais: aqui limita-se a dizer que “a Igreja tem uma atenção especial para com as crianças que vivem com casais do mesmo sexo, insistindo que em primeiro lugar são colocados sempre as exigências e os direitos dos pequenos” (ibid). Na conferência de imprensa de apresentação, Mons. Bruno Forte chegou a auspiciar “uma codificação dos direitos que podem ser assegurados às pessoas que vivem em uniões homossexuais”.

As palavras fulminantes de São Paulo segundo as quais “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os salteadores hão de herdar o reino de Deus” (I Carta aos Coríntios, 6, 9) ficam esvaziadas de sentido para os malabaristas da nova moralidade pansexual. Para eles é necessário entender a realidade positiva daquele que foi chamado de pecado que clama ao Céu por vingança (Catecismo de São Pio X). A “moral da proibição” deve ser substituída pela do diálogo e da misericórdia, e o slogan de 68, “é proibido proibir”, é atualizado pela fórmula pastoral segundo a qual “nada se pode condenar”.

Não caem apenas dois mandamentos, o sexto e o nono, que proíbem pensamentos e atos impuros fora do casamento, mas desaparece a ideia de uma ordem natural e divina objetiva sintetizada no Decálogo. Não existem atos intrinsecamente ilícitos, verdades e valores morais pelos quais se deve estar disposto a dar até a vida, como os define a encíclica Veritatis Splendor (no. 51 e no. 94). No banco dos réus não estão apenas a Veritatis Splendor e os recentes pronunciamentos da Congregação para a Doutrina da Fé em matéria de moralidade sexual, mas o próprio Concílio de Trento que formulou dogmaticamente a natureza dos sete sacramentos, a começar pela Eucaristia e pelo Matrimônio.

Tudo começa em outubro de 2013, quando o Papa Francisco, após ter anunciado a convocação dos dois sínodos sobre a família, o ordinário e o extraordinário, promove um “Questionário” dirigido aos bispos de todo o mundo. O uso enganoso de pesquisas e questionários é bem conhecido. A opinião pública julga que uma escolha é justa quando feita pela maioria das pessoas. E as sondagens atribuem a essa maioria, opiniões já predeterminadas pelos manipuladores do consenso. O questionário desejado pelo Papa Francisco abordou os temas mais prementes, da contracepção à comunhão aos divorciados, das uniões de fato aos casamentos entre homossexuais, mais com o objetivo de orientação que de informação.

A primeira resposta, publicada em 3 de fevereiro pela Conferência Episcopal alemã (“Il Regno Documenti”, 5 [2014], pp. 162-172), foi claramente anunciada para condicionar a preparação do Sínodo e sobretudo para oferecer ao cardeal Kasper a base sociológica de que precisava para a preleção ao Consistório que o Papa Francisco lhe havia confiado. O que de fato emergiu foi a recusa explícita dos católicos alemães “às pretensões da Igreja sobre as relações sexuais pré-maritais, a homossexualidade, os divorciados recasados e o controle da natalidade” (p. 163). “As respostas recebidas das dioceses – dizia-se ainda – deixam entrever quão grande é a distância entre os batizados e a doutrina oficial, sobretudo no que diz respeito à convivência pré-matrimonial, ao controle de natalidade e à homossexualidade” (p. 172).

Esta distância não vinha apresentada como uma separação dos católicos em relação ao Magistério da Igreja, mas como uma incapacidade da Igreja em compreender e secundar o curso dos tempos. O cardeal Kasper, em sua exposição ao Consistório de 20 de fevereiro, definirá tal distância de um “abismo” que a Igreja deveria ter preenchido adaptando-se à prática da imoralidade.

De acordo com um dos seguidores do cardeal Kasper, o sacerdote genovês João Cereti, conhecido por um estudo tendencioso sobre o divórcio na Igreja primitiva, o questionário foi promovido pelo Papa Francisco, a fim de evitar que o debate ocorresse “em ambientes confinados” (“Il Regno-Attualità” 6 [3014], p. 158). Mas se é verdade que o Papa desejava que a discussão se desenvolvesse de forma transparente, não se compreende a decisão de realizar o Consistório extraordinário de fevereiro e, em seguida, o Sínodo de outubro a portas fechadas. O único texto de que se teve conhecimento, graças ao “Foglio”, foi a exposição do Cardeal Kasper. Em seguida baixou o silêncio sobre os trabalhos.
Em seu Diário do Concílio, em 10 de novembro de 1962, o Padre Chenu anota estas palavras do padre Giuseppe Dossetti, um dos principais estrategistas da frente progressista: “A batalha eficaz se joga no regulamento. É sempre por esta via que eu ganhei”. Nas assembleias, o processo decisório não pertence à maioria, mas à minoria que controla o regulamento. Não existe democracia na sociedade política nem na religiosa. A democracia na Igreja, observou o filósofo Marcel De Corte, é cesarismo eclesiástico, o pior de todos os regimes. No processo sinodal em curso a existência deste cesarismo eclesiástico é demonstrada pela pesada atmosfera de censura que o acompanhou até hoje.

Os vaticanistas mais cuidadosos, como Sandro Magister e Marco Tosatti, sublinharam que, ao contrário dos Sínodos precedentes, neste foi proibido aos padres sinodais de intervir. Magister, recordando a distinção feita por Bento XVI entre o Vaticano II “real” e o “virtual” que se lhe sobrepôs, falou de uma “divisão entre sínodo real e sínodo virtual, este último construído pela mídia com a sistemática ênfase às coisas caras ao espírito do tempo”. Hoje, no entanto, são os próprios textos do Sínodo que se impõem com a sua força explosiva, sem a possibilidade de deturpações pelos meios de comunicação, que se têm mostrado até mesmo espantados com o poder explosivo do Relatório do cardeal Erdö.

Naturalmente este documento não tem qualquer valor magisterial. É também lícito duvidar que ele reflita o verdadeiro pensamento dos Padres sinodais. Contudo, a Relatio prenuncia a Relatio Synodi, o documento final da assembleia dos bispos.

O verdadeiro problema que agora se porá é o da resistência, anunciado no livro Permanere nella Verità di Cristo [Permanecer na Verdade de Cristo], dos cardeais Brandmüller, Burke, Caffarra, De Paolis e Müller (Cantagalli 2014). O cardeal Burke, em sua entrevista com Alessandro Gnocchi no “Foglio” de 14 de outubro, afirmou que eventuais mudanças na doutrina ou na prática da Igreja pelo Papa seriam inaceitáveis, “porque o Papa é o Vigário de Cristo na terra e, por conseguinte, o primeiro servo da verdade da fé. Conhecendo o ensinamento de Cristo, não vejo como se possa desviar daquele ensinamento com uma declaração doutrinária ou com uma prática pastoral que ignore a verdade”.

Os bispos e os cardeais, até mais do que os simples fiéis, encontram-se diante de um terrível drama da consciência, muito mais grave do que aquele que tiveram de enfrentar no século XVI os mártires ingleses. Com efeito, tratava-se então de desobedecer à suprema autoridade civil, o rei Henrique VIII, que por um divórcio abriu o cisma com a Igreja Romana, enquanto hoje a resistência é feita à suprema autoridade religiosa, caso esta se desvie do ensinamento perene da Igreja.

E quem é chamado a resistir não são católicos desobedientes ou dissidentes, mas precisamente aqueles que mais profundamente veneram a instituição do Papado. Outrora, quem resistisse era entregue ao braço secular, que o destinava à decapitação ou ao esquartejamento. O braço secular contemporâneo aplica o linchamento moral, através da pressão psicológica exercida pela mídia sobre a opinião pública.

O resultado é muitas vezes o colapso físico e mental das vítimas, a crise de identidade, a perda da vocação e da fé, a menos que se seja capaz de exercitar, com o auxílio da graça, a virtude heroica da fortaleza. Resistir significa, em última análise, reafirmar a total coerência da própria vida com a Verdade imutável de Jesus Cristo, invertendo o argumento dos que hoje pretendem dissolver a eternidade do Verum na precariedade do quotidiano.

http://fratresinunum.com/2014/10/16/resistir-a-tendencia-heretica-o-relatorio-do-cardeal-erdo-elimina-com-um-so-golpe-o-pecado-e-a-lei-natural/#more-31503

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A CAMINHO DO INFERNO

Por Anatoli Oliynik

O crítico literário, Rodrigo Gurgel, publicou em seu sítio no dia 31 de maio o artigo sob o título “Reações ao Decreto 8.243 – a sociedade ainda respira. Até quando?” Neste artigo, Gurgel faz uma análise sobre as reações e repercussões do famigerado documento totalitário da mandatária do pais em obediência às determinações do politiburo brasileiro que viceja nos porões da camada oculta da política brasileira e administra a Caixa de Pandora.
Escreve Gurgel:
“A principal característica de um governo esquerdista é que ele jamais se contenta em governar de acordo com a ordem legal, instituída. Ele sempre acredita que detém a chave, a poção, a receita miraculosa para transformar o país no que, ele imagina, será o melhor dos mundos. O problema é que o melhor dos mundos, quando se trata da esquerda, está sempre próximo do que imaginamos ser o Inferno, quando não é o próprio Inferno.”

Mamãe, hoje com 89 anos de idade, lúcida, lê jornais, analisa fatos, viveu em dois mundos, cujos regimes pareciam ser distintos, mas que na realidade eram idênticos, tanto nas ações praticadas que eram os meios, quanto aos resultados que eram os fins almejados: o totalitarismo! Esses regimes – comunismo e nazismo – eram dirigidos por líderes psicopatas: na Ucrânia, sob o tacão do assassino Iosef Vissarionovich Dzhugashvili, mais conhecido por Stalin e na Alemanha, em plena Segunda Guerra Mundial, sob o regime nazista de Adolf Hitler.
Comentei com ela o artigo de Gurgel e, mas especificamente, o excerto supra. Ela, como testemunha real e concreta dos fatos ocorridos na segunda metade do século passado, tanto sob o tacão comunista quanto sob a esquizofrenia nazista, confirmou integralmente a análise feita pelo nosso crítico literário e escritor de escol e asseverou: ambos os regimes são criadores e mantenedores do próprio inferno na terra.
Infelizmente, os idiotas inúteis brasileiros que apoiam o regime que está em vias de ser oficializado no país e este excremento elaborado pela admiradora de Ho Chi Minh e que poderá levar o Brasil ao próprio inferno, ignoram a realidade dos fatos e fazem escárnio quando alguém tenta remover o véu que empana os olhos e a anestesia que entorpece a mente dessa gente. Agem como gado que é movido em direção do matadouro, ou porque não tem consciência da existência do matadouro, ou porque sonham com a utopia de colocar o burro na sombra e beber água fresca. Acontece que o inferno não tem sombra e nem água fresca. (Escrito em 01/06/2014)

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O PODER DA FÉ

Por Anatoli Oliynik

A modernidade suprimiu do ser humano dois dos mais preciosos dons naturais: a percepção e o significado da vida real e concreta e a sensibilidade para o singelo. Assim, insensível, o homem perdeu, por consequência, outros dons inatos a sua natureza, como a acepção das palavras e a beleza de expressão de pensamentos. No plano sobrenatural, a fé.

Louis Charles Athanaïse Cécile Cerveaux Prosper talvez seja o melhor exemplo que podemos encontrar de que é possivel viver num ambiente pós-moderno e ainda assim, conservar a sua natureza espiritual.

Quem foi ele e qual foi seu legado?

Foi um diplomata, dramaturgo e poeta francês, membro da Academia Francesa de Letras e galardoado com a grã-cruz da legião de honra. É considerado importante escritor católico. Seu nome artístico: Paul Claudel.

Claudel nasceu em Aisne, na localidade de Villeneuve-sur-Fère. Sua família paterna era de fazendeiros e funcionários públicos, mas seu pai, Louis Prosper, lidava com hipotecas e transações bancárias. Sua mãe, Louise Athanaïse Cécile Cerveaux, era de uma família muito católica, também de fazendeiros, de Champagne, onde Paul viveu na infância.

Apesar de ter pensado em dedicar-se à vida monástica, com os monges beneditinos, ele acabou entrando para o corpo diplomático da França, em que serviu de 1893 a 1936. Foi vice-cônsul em Nova Iorque, em Boston, Praga, Frankfurt e Hamburgo. Foi cônsul na China (1895-1909).

Em março de 1906, casou-se com Reine Sainte-Marie Perrin e teve filhos com ela, em um casamento feliz.

Foi ‘ministro plenipotenciário’ no Rio de Janeiro (1916) e em Copenhagen. Foi embaixador em Tóquio, Washington e Bruxelas.

O período de sua missão no Brasil coincidiu com a Primeira Guerra Mundial, e ele supervisionou o envio de alimentos da América do Sul para a França.

Aposentou-se em 1936 e viveu em seu castelo em Brangues (Isère) até sua morte, em 1955.

Seu legado:

Até os 18 anos, Paul era ateu. Na noite de Natal de 1886, ao ouvir o coro da catedral de Notre-Dame de Paris, ele se emocionou ao ver que todos tinham fé e oravam para um Deus que até então ele não queria conhecer, e então, subitamente, converteu-se ao catolicismo.

Sobre este acontecimento, Claudel assim se expressou:

A noite de Natal do dia 25 de Dezembro de 1886

“Assim se passavam as coisas com aquele pobre rapaz que, no dia 25 de Dezembro de 1886, entrava na catedral de Notre-Dame de Paris, para ali assistir ao ofício divino do Natal. Começava eu então a escrever, e tive a impressão de que poderia, com superior diletantismo, encontrar nas cerimônias católicas, um meio adequado e matéria para alguns trabalhos. Nesta disposição de espírito, apertado e empurrado pela multidão, assisti à Missa cantada, com moderada alegria. Como nada mais interessante havia a fazer, voltei de novo à tarde para assistir às Vésperas. Os meninos do coro da catedral, de roquetes brancos, e os alunos do Seminário de S. Nicolau du Chardonnet, que os auxiliavam, tinham justamente começado a cantar qualquer coisa em que mais tarde reconheci o Magnificat. Eu estava de pé no meio da multidão, junto da segunda coluna, perto da entrada para o coro, à direita, do lado da sacristia.
E ali se deu o acontecimento que domina toda a minha vida. Num momento, o meu coração sentiu-se tocado, e tive fé. Tive fé com tal intensidade de adesão, com tal exaltação de todo o meu ser, com uma convicção tão poderosa, com tal segurança, que não ficava margem para nenhuma espécie de dúvida. E, desde então, todos os livros, todos os raciocínios, todas as eventualidades de uma vida agitada não conseguiram abalar a minha fé; mais do que isso, nem sequer conseguiram tocar-lhe. Subitamente, apoderou-se de mim o sentimento fremente da inocência, da perpétua filiação divina: uma revelação inefável. Quando tento reproduzir, como faço frequentemente, o decorrer dos minutos que se seguiram a este momento excepcional, encontro sempre os seguintes elementos que, todavia, representam um único raio, uma única arma, de que a Providência divina se serviu para alcançar e abrir o coração de um pobre filho desesperado: «Que felizes são, de fato, os que crêem! E se fosse verdade? verdade! — Deus existe; está aqui presente! É alguém! É um ser tão pessoal como eu! — Ama-me! chama por mim!» Invadiram-me as lágrimas e os soluços e o cântico tão delicado do «Adeste» aumentou ainda a minha comoção.”

E culmina na mais exuberante demonstração de fé:

“Ó meu Deus, lembro-me dessas trevas em que estávamos face a face; nessas sombrias tardes de inverno em Notre-Dame. Eu, sozinho, bem no fundo da igreja, alumiando a face do grande Cristo de bronze com uma vela de cinco vinténs. Todos os homens estavam contra nós – a ciência, a razão – e eu não respondia nada. Só a fé estava em mim, e eu Vos olhava em silêncio; como um homem que prefere o seu amigo.”

Vejamos, pois, a acepção das palavras de Paul e avaliemos a força de cada uma delas, só possível para pessoas que mantém incólume a sua sensibilidade e a sua fé, acima de tudo.

A invocação: (“Ó meu Deus”); Aqui Claudel não só se recorda, mas confessa que vivia nas trevas: (“Lembro-me dessas trevas em que estávamos face a face nessas sombrias tardes de inverno em Notre-Dame”);

A conversão é individual e solitária, é preciso penetrar dentro de si mesmo, ir até o fundo da alma para perceber Deus e assim poder religar o espirito a Ele: (“Eu, sozinho, bem no fundo da igreja”);

Claudel mostra o quanto o ser humano é insignificante e infinitamente pequeno diante de Deus (“alumiando a face do grande Cristo de bronze com uma vela de cinco vinténs.”);

Claudel fala do ateísmo do mundo moderno e da sua fé inabalável e, novamente, ele penetra dentro de si mesmo e percebe que o único e verdadeiro amigo, aquele que jamais o abandonará está em Deus, e escolhe seu caminho, definitivamente, contra tudo e contra todos: (“Todos os homens estavam contra nós – a ciência, a razão – e eu não respondia nada. Só a fé estava em mim, e eu Vos olhava em silêncio; como um homem que prefere o seu amigo.”). Esta é uma das passagens mais lindas, profundas e exuberante de fé.

Aqueles que desejarem ouvir o Magnificat e ler o primeiro artigo que escrevi a respeito de Paul Claudel, é só clicar no link que se segue:

http://blogdoanatolli.blogspot.com.br/2012/12/a-conversao-de-paul-claudel.html

Espero que o exemplo de Paul Claudel desperte em você a sensibilidade para acepção das palavras e para a beleza de expressão de pensamentos e, acima de tudo, para a convicção de que a fé opera milagres. Ela só precisa que você abra a porta para o transcendente e permita que o Espírito Santo penetre por ela.

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O ROMANTISMO E O CONCÍLIO VATICANO II

Por Anatoli Oliynik

Esta breve análise procura mostrar que o Romantismo penetrou no Concílio Vaticano II (CV II) e plantou suas sementes gnósticas parasitando a Santa Igreja Católica Apostólica Romana começando pela Santa Missa e culminando na divisão dos fiéis em dois grupos: os que procuram mostrar que o CV II estava parasitado, embora não deva ser condenado ipsum totum, e os que não aceitam este fato.

[photopress:Concilio_Vaticano_II__1962_1965_.jpg,full,centered]

O autor toma por base a tese de doutoramento do prof. Orlando Fedeli sobre “Romantismo, Cabala e Esoterismo”, aprovada pela USP, em 1988, a Carta Encíclica do Sumo Pontífice PIO X “PASCENDI DOMINICI GREGIS sobre as doutrinas modernistas” e a vídeo-aula “Aspectos Gerais do Romantismo” da professora doutora Ivone Fedeli publicada no website “MONTFORT Associação Cultural”, em 2011.

Comecemos esclarecendo o Romantismo:

“O Romantismo não tem dogma, nem princípio, nem objetivo, nem programa, nada que se situe dentro de um pensamento definido ou de um sistema de conceitos (…). O Romantismo é uma atitude vital de índole própria e nisso reside a impossibilidade de determinar conceitualmente a sua essência” (Nicola Hartman. A Filosofia do idealismo alemão. Lisboa, Gubelkian, 1983, pp. 189-190).

“O Romantismo representa o desejo de ressacralizar a vida, a tentativa de edificar uma nova Fé que fosse capaz de substituir o catolicismo tradicional” (GUSDORF, Le Romantisme, Payot Paris, 1993, p. 657)

A doutora Ivone Fedeli faz um alerta para aquelas pessoas que imaginam que o romantismo não passa de um gênero literário escolar, uma relação amorosa ou um estado de espirito:

“É preciso estudar o Romantismo no seu aspecto doutrinário. Na verdade, o romantismo é uma escola de pensamento muito mais ampla do que se possa imaginar. (…) O Romantismo está na gênese do marxismo e na gênese do nazismo, bem como na origem do modernismo. (…) O Romantismo é uma doutrina que estendeu sua influência a todas as esferas do pensamento”.

Para mostrar que o CV II estava parasitado pelo Romantismo, irei ater-me a um único ponto que aparece na Santa Missa da Igreja Católica, comparando a Missa de São Pio V (papa 1566-1572), conhecida entre nós como Missa Tridentina, e a Missa de Paulo VI (papa 1963-1978), produto do modernismo introduzido pelo Concílio Vaticano II (1962-1965).

Na Missa Tridentina depois do Glória (ou depois do Kyrie, quando não há Glória), o sacerdote volta-se para o povo dizendo:

“Dominus vobiscum” [O Senhor seja convosco]

Desejando a mesma benção ao sacerdote, o povo, ou, o coroinha em nome do povo responde:

“Et cum spiritu tuo” [E com vosso espírito]

Esta piedosa saudação repete-se várias vezes na Santa Missa, entre o sacerdote e o povo, como que para se animarem mutuamente a perseverar no fervor.

Já na Missa Nova – a encomendada por Paulo VI – o “Et cum spiritu tuo” foi traduzido como:

“Ele está no meio de nós”.

A respeito desta expressão, a doutora Ivone Fedeli levanta a seguinte questão:

“Essa tradução esquisita “Ele está no meio de nós”, poder-se-ia entender como “Ele está entre nós”, mas não é isso, pois vendo a direção que tomou essa teologia da missa, encomendada e criada por Paulo VI, é de se perguntar se as pessoas que fizeram essa tradução tão esquisita se elas estavam querendo dizer “Ele está entre nós”, porque “no meio de nós” é a palavra que os românticos usam tecnicamente”.

O prof. Orlando Fedeli em sua tese de doutoramento explica o que os Românticos pensam e como esse pensamento se relaciona com a Missa Nova de Paulo VI:

“Deus, o universo e o homem não teriam apenas uma correspondência poética. Entre eles haveria muito mais: haveria uma certa identidade substancial na medida em que o espírito divino – o Espirito Santo – está ao mesmo tempo, em Deus e também no cosmos e no homem, como um germe em vias de se desenvolver. Nesse sentido é que os românticos diziam que Deus era o ‘Centro’ (Zentrum), o ‘meio’ (Mitte) o ‘coração’, o ‘núcleo’ (kern), do homem e da natureza. Daí a Missa Nova de Paulo VI – pelo menos na tradução em português, quando o sacerdote diz: ‘O Senhor esteja convosco’, o povo proclama: ‘Ele está no meio de nós’. No meio, isto é, em Mitte, no Centrum de nós”.

E prossegue:

“E os que fizeram essa tradução esdrúxula do ‘Et cum spiritu tuo’ [E com vosso espírito] podem muito bem se escusar lembrando que na Constituição Gaudium et Spes se diz:

“Por isso, proclamando a vocação altíssima do homem e afirmando existir nele uma semente divina, o Sacrossanto Concílio oferece ao gênero humano a colaboração sincera da Igreja para o estabelecimento de uma fraternidade universal que corresponda a esta vocação” (Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et Spes, n.º 3).

“… essa idéia, exposta na Gaudium et Spes, mais do que corresponde, é idêntica ao que expunha a Gnose romântica:

“O fragmento 41 das Ideen evoca a necessidade de um contrapeso espiritual à Revolução, que cada um deve encontrar em si mesmo: assim o centro de equilíbrio de toda verdade se situa no espaço interior; todo movimento ‘deve vir do centro’, indica o fragmento 50. O centro é o lugar privilegiado a partir do qual se exerce a visão religiosa do mundo: ‘a religião é a força centrípeta e centrífuga no espírito humano e o que liga os dois (…). A determinação do Centro, expressão de uma nova economia espiritual, põe em causa a vocação de cada homem para a humanidade” (G. Gusdorf. “Du Néant à Dieu dans le Savoir Romantique”, p. 311)

“A coincidência vai até a expressão vocação do homem à humanidade…”

A professora Drª Ivone complementa:

“Por este texto é possível perceber o quanto de influência que o modernismo teve no Concílio Vaticano II e na Missa Nova – o grande meio de difusão da doutrina do Concílio entre o povo Católico”.
“A essência do romantismo é: “Tudo é um”. Rebaixar o que é elevado e elevar o que é baixo, colocando tudo no mesmo nível. Em outras palavras: sacralizar o profano e tornar profano o sagrado. O objetivo final do romantismo é essa divinização do homem.”
“Ao contrário da Doutrina Católica que diz que ‘a revelação é feita por um Deus que é exterior ao homem no universo, e, portanto extrínseca, os românticos vão dizer com os modernistas que ‘a revelação é interior ao homem’ e que ela não é só revelação do homem a Deus, como também a revelação do homem ao homem, porque o homem vai saber o que ele é quando ele se descobrir como Deus”.

E finaliza:

“É uma pena que João Paulo II, que acaba de ser beatificado, diga que Cristo é o novo Adão. Lamentavelmente ele escorregou pela ladeira do romantismo (gnose) quando escreveu Redemptor Hominis n.º 8:

REDEMPTOR HOMINIS n.º 8: “Cristo que é o novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu Amor, revela também plenamente o homem ao mesmo homem e descobre-lhe a sua vocação sublime.” (itálico do original)

“Infelizmente essa expressão de revelar o homem ao homem é tipicamente romântica e tipicamente gnóstica. Não devemos esquecer que o papa João Paulo II teve uma profunda influência dos poetas românticos eslavos”.

A Missa de Pio V nunca foi proibida pela Santa Sé, mesmo depois do Concílio Vaticano II, todavia, no Brasil, os bispos ligados à CNBB – o núcleo comunista da Igreja no Brasil – simplesmente a aboliram. Vejamos um depoimento de Júlio Fleichman, presidente da “Permanência” durante trinta e cinco anos:

“A missa é o resultado místico de uma obra mística, de grandes místicos. Primeiro do próprio Jesus e depois os ritos surgiram de grandes místicos da Igreja, que foram, primeiro, os apóstolos, todos santos, depois grandes Papas santos e grandes doutores santos – com isso foi se formando a missa que tem, se não na sua integridade, pelo menos na sua essência, dois mil anos. E quando começaram a aparecer variações que punham em risco a pureza daquele ato litúrgico, o Concílio de Trento, no século XVI, estabeleceu as normas que a missa deveria seguir e o Papa, São Pio V, publicou uma encíclica famosa, chamada Quo Primum, proibindo que se fizessem modificações na missa dali para frente, coisa que os progressistas de Roma de nosso tempo não admitiram, e disseram que, se um Papa proibiu, o outro Papa, que tem poder igual, pode ‘desproibir’, e então fabricaram a missa de Paulo VI, que é essa que está aí.”

“Quando compreendemos que a missa nova era insuportável, começamos [Júlio, Gustavo Corção e outros] a procurar padres que nos dissessem a missa tradicional (…) até que descobrimos um padre holandês com quem fui conversar. Sentei-me ao seu lado no banco da Igreja e perguntei: ‘Padre, me diga uma coisa, o senhor acha que está proibido dizer a missa tradicional da Igreja? E ele me respondeu que não, que não podiam proibir a missa. Então, eu pedi ao padre que dissesse a missa para nós e ele aceitou. Tínhamos a missa na capela de umas freiras carmelitas, ao meio dia. E nós passamos cerca de quatro anos de felicidade tranqüila, porque para nós isso era o principal da nossa vida. Depois, perdemos a missa, porque uma das freiras nos denunciou e o cardeal mandou proibir. O padre holandês recebeu a proibição e ficou apavorado, com medo de o cardeal manda-lo de volta para a Holanda, e se recusou a continuar com aquela missa.”

O problema não é novo. O Papa Pio X por meio da Carta Encíclica “PASCENDI DOMINICI GREGIS” publicada em 8 de setembro de 1907, no quinto ano de seu pontificado, já alertava todo o povo Católico de que os inimigos da Santa Igreja Católica Apostólica Romana provinham, também, de dentro da própria Igreja.

Embora um pouco longa, transcrevemos a “Introdução” da “Pascendi” para relatar que a crise é grave e é de fé.

INTRODUÇÃO: “A missão, que nos foi divinamente confiada, de apascentar o rebanho do Senhor, entre os principais deveres impostos por Cristo, conta o de guardar com todo o desvelo o depósito da fé transmitida aos Santos, repudiando as profanas novidades de palavras e as oposições de uma ciência enganadora. E, na verdade, esta providência do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja Católica; porquanto, devido ao inimigo do gênero humano nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os mais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo, há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais, com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo. Por isto já não Nos é lícito calar para não parecer faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para que se Nos não acuse de descuido de nossa obrigação, a benignidade de que, na esperança de melhores disposições, até agora usamos.
E o que exige que sem demora falemos, é antes de tudo que os fautores do erro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos.
Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando ousadamente fileiras se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem.
Pasmem, embora homens de tal casta, que Nós os ponhamos no número dos inimigos da Igreja; não poderá porém, pasmar com razão quem quer que, postas de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplique a examinar as doutrinas e o modo de falar e de agir de que lançam eles mão. Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos conselhos; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que meneiam eles o machado.
Batida pois esta raiz da imortalidade, continuam a derramar o vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar. E ainda vão mais longe; pois pondo em obra o sem número de seus maléficos ardis, não há quem os vença em manhas e astúcias: porquanto, fazem promiscuamente o papel ora de racionalistas, ora de católicos, e isto com tal dissimulação que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto; e sendo ousados como os que mais o são, não há conseqüências de que se amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos. Acrescente-se-lhes ainda, coisa aptíssima para enganar o ânimo alheio, uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa aplicação a todo o ramo de estudos e, o mais das vezes, a fama de uma vida austera. Finalmente, e é isto o que faz desvanecer toda esperança de cura, pelas suas mesmas doutrinas são formadas numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio; e, confiados em uma consciência falsa, persuadem-se de que é amor de verdade o que não passa de soberba e obstinação. Na verdade, por algum tempo esperamos reconduzi-los a melhores sentimentos e, para este fim, a princípio os tratamos com brandura, em seguida com severidade e, finalmente, bem a contragosto, servimo-nos de penas públicas.
Mas vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, como tudo foi debalde; pareceram por momento curvar a fronte, para depois reerguê-la com maior altivez. Poderíamos talvez ainda deixar isto desapercebido se tratasse somente deles; trata-se porém das garantias do nome católico.
Há, pois, mister quebrar o silêncio, que ora seria culpável, para tornar bem conhecidas à Igreja esses homens tão mal disfarçados.
E visto que os modernistas (tal é o nome com que vulgarmente e com razão são chamados) com astuciosíssimo engano costumam apresentar suas doutrinas não coordenadas e juntas como um todo, mas dispersas e como separadas umas das outras, a fim de serem tidos por duvidosos e incertos, ao passo que de fato estão firmes e constantes, convém, Veneráveis Irmãos, primeiro exibirmos aqui as mesmas doutrinas em um só quadro, e mostrar-lhes o nexo com que formam entre si um só corpo, para depois indagarmos as causas dos erros e prescrevermos os remédios para debelar-lhes os efeitos perniciosos.”

Mesmo com a publicação desta Encíclica o processo de subversão da Igreja continuou e com Pio XII (1939-1958) deu-se o fim da Igreja, tal como ela foi durante vinte séculos. O ecumenismo – “Tudo é um” – e a revolução litúrgica caminham a passos largos rumo à humanização de Deus e a divinização do homem e da natureza.

Com relação ao ecumenismo Chesterton diz algo assim:

“As pessoas não se dão conta de que o mais grave risco que já correu a fé em Jesus Cristo e o risco de desaparecimento da fé cristã sobre a face da Terra, foi corrido num mar de boa acolhida, de boa vontade, de boa disposição, quando, às margens do Adriático, foi oferecido aos cristãos colocar lá sua estátua de Jesus no meio das outras, para ser mais uma entre as outras. Esse foi o mais grave risco que a religião cristã correu de desaparecer, porque foi para não admitir isso que os mártires morreram, que os mártires deram o sangue.”

Diante de tamanha gravidade para a Igreja de Cristo, devemos nos unir em oração suplicando à Imaculada Conceição para que proteja e defenda a Santa Igreja Católica Apostólica Romana dos insidiosos que a subvertem a partir de dentro, corrompidos que foram pelos inimigos externos da Igreja e de Deus. O mal jamais vencerá. Santa Maria, rogai por nós!

Escrito em 27/02/2013

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REFLEXÃO COM THOMAS MERTON

Por Anatoli Oliynik

Nunca é demais repetir coisas que alimentam a alma, dão energia ao corpo e proporcionam luzes para clarear o nosso caminho nestes tempos hodiernos tão eivados de descrença e materialidade, onde o mal e os psicopatas tripudiam sobre o bem e as coisas sagradas, fazendo escárnio de nossas crenças, atitudes, pensamentos e caráter.
O impacto que as palavras de Merton causam, já na primeira estrofe, nos leva a muitas meditações, porém destacam-se duas questões que cada um deveria fazer a si mesmo: Que caminho estou trilhando? Tenho consciência para onde ele está me levando?

THOMAS MERTON
Monge trapista (1915-1968)

Senhor Deus,
Não tenho a menor idéia de para onde estou indo,
Não enxergo o caminho à minha frente,
Não sei ao certo onde irá dar esse caminho.

Também não conheço verdadeiramente a mim mesmo,
E o fato de que penso que estou seguindo a Tua vontade
Não significa que realmente esteja seguindo a Tua vontade.

Mas acredito que o meu desejo de Te agradar
Realmente Te agrada.
E espero ter esse desejo em tudo o que fizer,
Espero nunca me afastar desse desejo.

Sei que, se assim o fizer,
Tu me guiarás pelo caminho correto
Embora eu possa nem saber que o estou trilhando.

Assim, confiarei sempre em Ti
Embora eu pareça estar perdido
E caminhando na sombra da morte.

E não temerei, porque Tu estás sempre comigo
E nunca deixarás que eu enfrente os perigos sozinho.

——————————————–

(*) Thomas Merton (1915 – 1968) Monge Trapista da Abadia de Gethsemani, Kentucky, EUA, escreveu mais de setenta livros, a maioria sobre espiritualidade, e também foi objeto de várias biografias. Um homem sereno e ao mesmo tempo irado, como aquele que vê no conformismo a maior tragédia da humanidade.

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ORGANIZAÇÕES GLOBALISTAS E A NOVA ORDEM MUNDIAL

Por Anatoli Oliynik

Segundo Aristóteles, conhecer a verdade é um dom natural do ser humano, só obstaculizado por fatores acidentais ou privações forçadas. Aristóteles não conheceu o Brasil.

Impossível falar das Organizações Globalistas e da Nova Ordem Mundial abarcando toda a sua amplitude a partir do texto de um artigo. O assunto é complexo, maior do que se possa imaginar a primeira vista e exige um mergulho profundo nos meandros das estratégias políticas e labirintos do poder para compreendê-lo em sua inteireza. Embora a literatura seja vasta, apresenta a dificuldade de ser praticamente toda ela em língua inglesa.

Assim, no ideário brasileiro “globalização” assume o sinônimo de capitalismo e imperialismo ianquista e a “Nova Ordem Mundial” não passa de “teoria da conspiração” e fim de papo.

Um dos poucos brasileiros que escreve sobre o assunto é o jornalista, ensaísta e filósofo, Olavo de Carvalho, mas nem todos leem Olavo porque o establishment brasileiro faz-lhe ferrenha oposição impedindo o seu acesso a grande mídia brasileira porque é do interesse dessa mesma mídia que o assunto fique oculto e ignorado pelo povo brasileiro. Com isso a maioria das pessoas desconhece o verdadeiro significado da “globalização” e “Nova Ordem Mundial”, e o que isso representa para o Brasil e para o mundo hodierno.

O meu objetivo não é suprir essa lacuna, pois não tenho todos os elementos e nem conhecimento para tanto, mas o de trazer o assunto à tona, para fora do establishment brasileiro, e com isso despertar a curiosidade das pessoas motivando-as na busca de mais informações.

Inicio esse despertar apresentando um quadro onde figuram cronologicamente as principais organizações e fundações globalistas que constituem a Nova Ordem Mundial.

CRONOLOGIA DAS FUNDAÇÕES E ORGANIZAÇÕES GLOBALISTAS
Fundações e Organizações Globalistas que visam a instituição da Nova Ordem Mundial
* Objetivo: Controlar o Mundo *

Ano Nome
1896 Carnegie Institute of Pittisburgh
1902 Carnegie Institution of New York
1910 Carnegie Endowment for International Peace 1 [Fundação Nacional Canegie para a Paz Internacional]
1911 Carnegie Corporation of New York
1901 Comitê dos 300 2
1902 Rhodes Trust 3  Rhodes Scholarship
1910 Round Tabe [Mesa Redonda] – (jornal) 4
1913 Round Tabe [Mesa Redonda] – (grupos)
1913 Fundação Rockefeller
1920 Instituto Real de Assuntos Internacionais (RIIA) 5
1920 Liga das Nações
1921 CFR – Council on Foreign Relations [Conselho de Relações Exteriores]
1923 Escola de Frankfurt 6
1936 Fundação Ford
1945 Organização das Nações Unidas (ONU) 7
1947 Instituto Tavistock de Londres 8
1952 Conselho Populacional [braço operacional da Fundação Rockefeller]
1954 Clube Bilderberg
1968 Clube de Roma
1970 Fundação MacArthur
1973 Comissão Trilateral
1982 Inter-American Dialogue [Diálogo Interamericano] 9
Quadro 1
———————
Notas do Quadro 1:
1 Direcionada ao entendimento diplomático das nações. Núcleo central que vigora até hoje.
2 1901 é a data provável de sua fundação que coincide com o ano da morte da Rainha Vitória.
3 Fundada por testamento de Cecil John Rhodes (1853-1902) a Rhodes Trust mantêm duas subsidiárias: A Cecil Rhodes Scholardship em homenagem ao seu patrono e o Rhodes Trust Fund.
4 Heitor De Paola indica dois livros fundamentais para entender a Mesa Redonda: The Anglo-American Establishment, de Carroll Quigley e o Tragedy & Hope, também do Quigley.
5 Royal Institute of International Affairs (RIIA). Também conhecido como “Chattan House” fundado em Londres. O RIIA equivale ao CFR – Conselho de Relações Exteriores sediado nos EUA.
6 A Escola de Frankfurt tem por missão a destruição da Cultura Ocidental – “Revolução Cultural”.
7 Sucessora da Liga das Nações. A mudança de nome foi estratégica: mesma missão; mesmos objetivos.
8 Função: Estudos da ciência comportamental na linha freudiana para “controlar” humanos.
9 Fundado por David Rockefeller. Fernando Henrique Cardoso, membro do Dialogo, é quem estabelece a sua ligação com o Brasil.
——————–
As organizações supracitadas, todas elas, sem exceção, atuam sob duas camadas: uma pública, de fachada e a outra oculta ou até mesmo secreta da qual o público não tem o mínimo conhecimento. É sobre a face oculta que falarei de ora em diante.

Inicio suscitando algumas perguntas que por certo o leitor ou a leitora está fazendo. Vamos a elas:

O que são essas fundações e organizações descritas no quadro supra e quais são seus projetos?

“São forças históricas, algumas originárias de famílias nobiliárquicas, outras não, mas todas elas visando um único objetivo: Controlar o mundo.”

Complementado a resposta e falando sobre a elite globalista que se forma a partir dessas forças históricas:

“É uma entidade organizada, com existência contínua há mais de um século, que se reúne periodicamente para assegurar a unidade de seus planos e a continuidade da sua execução, com a minúcia e a precisão científica com que um engenheiro controla a transmutação do seu projeto em edifício”. (CARVALHO, pp. 78-9)

Quanto ao projeto:

“O projeto globalista é herdeiro direto e continuador do socialismo fabiano, tradicional aliado dos comunistas.” (CARVALHO, p. 55)

A pesquisadora, escritora e conferencista, Berit Kjos, em seu artigo “Transformando o mundo através da Violência, Guerra, Engano e Caos” revela, a partir de pistas antigas, informações importantes para estabelecer a compreensão das mudanças de hoje, assim como para o elo que procuro estabelecer entre essas organizações e a Nova Ordem Mundial. A seguir o excerto do seu artigo:

Transformando o mundo através
Violência , Guerra , Engano & Caos (Part 1)
Berit Kjos – 24 set 2012

1913 (janeiro). Presidente Woodrow Wilson escreveu em seu livro, A Nova Liberdade: “Estamos em um novo mundo …. Estamos na presença de uma revolução …. (que) virá de forma pacífica …”Ele continuou:

“Alguns dos maiores homens dos EUA, no campo do comércio e fabricação [indústria], estão com medo de alguém, estão com medo de alguma coisa. Eles sabem que há um poder em algum lugar tão organizado, tão sutil, tão atento, tão interligado, tão completo, tão penetrante, que é melhor não falar muito alto quando falarem em condenação a ele ….

“Estamos temendo ao longo do tempo em que o poder combinado das altas finanças seria maior do que o poder do governo ….

“Viemos para ser um dos piores governados, um dos governos mais completamente controlados e dominados no mundo civilizado, não mais um governo pela opinião livre, não mais um governo por convicção e pelo voto da maioria, mas um governo pela opinião e coação de pequenos grupos de homens dominantes…. Estamos em um novo mundo. … Estamos na presença de uma revolução …. ” [3]

1922 Nove anos depois, o Prefeito de Nova York, John Hylan, deu-nos um vislumbre da amotinada sombra por trás de líderes eleitos na Europa, bem como na América. Seu objetivo era uma Nova Ordem Mundial – e a dissolução da velha:

“… A verdadeira ameaça à nossa república é esse governo invisível que, como um polvo gigante, estende sua envergadura viscosa sobre a cidade, o estado e a nação. Como o polvo da vida real, ele opera sob a cobertura do que ele mesmo cria. Ele agarra [controla] com seus longos e poderosos tentáculos nossos diretores, nossos corpos legislativos, nossas escolas, nossos tribunais, nossos jornais e cada agência criada para a proteção do público.” [4]

1931 . (Novembro). Arnold Toynbee faz um discurso no Instituto para o Estudo de Assuntos Internacionais, em Copenhague, em que ele explica,
“Estamos no presente trabalhando discretamente com todo vigor para arrancar essa força misteriosa chamada soberania das garras dos Estados-nação do mundo. Todo o tempo, negamos com nossa fala o que estamos fazendo com nossas mãos, pois impugnar a soberania dos Estados-nação do mundo ainda é uma heresia pela qual um estadista ou homem público pode … ser banido ou desacreditado. “[5]

1932 . O presidente Max Mason da Fundação Rockefeller, informa aos seus associados que “As Ciências Sociais se ocuparão da racionalização de controle social … o controle do comportamento humano. “[6]b [trabalho que esta sendo desenvolvido pelo Instituto Tavistock]

1932 . Dr. Ernst Rudin, o diretor nazista do Instituto Kaiser Wilhelm de Psiquiatria (financiado pela [Fundação] Rockefeller) foi nomeado presidente do global Federação de Eugenia. Seus experimentos mais famosos ocorreram em campos de concentração nazistas !

“O movimento chamado para a morte ou a esterilização das pessoas cuja hereditariedade fez-lhes um ônus público. … Hitler assumiu a Alemanha e o aparelho Rockefeller-Rudin tornou-se uma seção do Estado nazista. O regime nomeado Rudin chefe da Sociedade de Higiene Racial. Rudin e sua equipe … presidido por Heinrich Himmler, elaborou a lei de esterilização …. Sob os nazistas, a companhia química alemã IG Farben e Rockefellers Standard Oil de Nova Jersey foram efetivamente uma única empresa. … Em 1940-41, IG Farben construiu uma fábrica gigantesca em Auschwitz, na Polônia, para utilizar a Standard Oil / patentes da IG Farben com concentração de trabalho escravo [no] acampamento Controle da População, Nazistas e ONU !

1933 e 1934 . Em um relatório apresentado na 72ª reunião anual [da] NEA, Willard Givens (mais tarde secretário-executivo da NEA) escreveu:

“A moribunda laissez-faire deve ser completamente destruída e todos nós … devemos ser submetidos a um elevado grau de controle social …. A função principal da escola é a orientação social do indivíduo. Deve procurar a dar ele a compreensão da transição para uma nova ordem social”.[8]

1935 . O símbolo maçônico do olho na pirâmide foi oficialmente adicionado ao dólar dos EUA. Henry A. Wallace, Secretário da Agricultura do Presidente Roosevelt (um socialista e teosofista que mais tarde se tornou Roosevelt vice-presidente), explicou:

“Assim que Roosevelt olhou para a reprodução colorida do Selo, ficou impressionado com a representação do ‘Olho Que Tudo Vê’, uma representação maçônica do Grande Arquiteto do Universo…. Roosevelt, assim como eu, era um Mason grau 32. Ele sugeriu que o Selo fosse colocado na nota de dólar. “Henry A. Wallace.”[9]

1937 . John Foster Dulles, Secretário de Estado e ex-presidente da Fundação Rockefeller e do comitê executivo da Conselho Federal de Igrejas (Substituído pelo Conselho Nacional de Igrejas) elogiou o totalitarismo dizendo:

“… O comunismo e o fascismo [estão] mudando as características de populações inteiras …. Há uma subordinação consciente de si a fim de que um grande objetivo possa ser alcançado.” [10]

1939 . Em um discurso para YMCA, o futuro secretário de Estado, John Foster Dulles (membro do CFR), disse, “[Deve haver] alguma diluição da soberania, em detrimento imediato das nações que agora possuem a preponderância do poder…. “[11]

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Notas:
3. Dennis L. Cuddy, Ph.D., Secret Records Revealed (Oklahoma City: Heartstone Publishing, 1994), páginas 30, 32.
4. The New York Times , 27 de março de 1922. Citado por Dennis L. Cuddy, Ph.D., Cronologia da Educação com cotações Quotable (Pro Fórum da Família, Highland City, FL 33846, 1994), página 15.
5. “A tendência de Assuntos Internacionais Desde a Guerra”, de Assuntos Internacionais , Jornal do Instituto Real de Assuntos Internacionais, em novembro de 1931.
6. Dennis L. Cuddy, Ph.D., Cronologia da Educação com cotações Quotable (Pro Fórum da Família, Highland City, FL 33846, 1994); p.18.
7. Dr. Leonard Horowitz, ” Controle da População, Nazistas e ONU! ” (Tetrahedron, LLC Press, 1996)
8. Dennis L. Cuddy, Ph.D., “Controle de Saúde, Educação e Social Mental”, Setembro de 2004, www.crossroad.to/articles2/006/cuddy/mental_health-2.htm
9. Donald Lett Jr., Phoenix Rising: A Ascensão e Queda da República americana, p. 121 (04 de fevereiro de 2008). Fotos aqui: http://greatseal.com/dollar/hawfdr.html
10. John Foster Dulles, ex-presidente da Fundação Rockefeller e do comitê executivo do Conselho Federal de Igrejas, religião na vida , vol. 6, p.197.
11. New York Times , 1939/10/29. Citado por Charlotte Iserbyt, O Dumbing deliberada de Down da América (Ravenna, OH: Imprensa Consciência, 1999).
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Diante das evidências até agora expostas, é licito afirmar que não se trata de nenhuma “teoria da conspiração”, mas sim de um projeto adrede preparado há mais de um século e que vem sendo colocado em prática pelas organizações globalistas listadas no Quadro 1 do presente artigo.

Retornemos, pois a mais perguntas que devem estar fervilhando no cérebro dos leitores:

Qual a repercussão dessas organizações para o Brasil?
“Quem quer que tenha acompanhado as grandes mudanças na política econômica, jurídica e cultural do Brasil nos últimos vinte anos sabe que todas elas vieram prontas das centrais globalistas – ONU, OMS, UNESCO, Bilderberg, Rockefeller, Fundação Ford, George Soros, etc.” (CARVALHO, p.76)

Essas organizações não atuam isoladamente, embora possam fazê-lo e o fazem, elas formam uma espécie de “Consórcio” que Olavo de Carvalho assim descreve:

“O Consórcio atua por meio de uma multiplicidade de organizações subsidiárias espalhadas pelo mundo todo, [ ... ] mas não tem ele próprio uma identidade jurídica. Isso é uma condição essencial para sua atuação no mundo, permitindo-lhe comandar inumeráveis processos políticos, econômicos, culturais e militares sem poder jamais ser responsabilizado diretamente pelos resultados, seja ante tribunais, seja ante o julgamento da opinião pública.” (CARVALHO, p. 80)

No Brasil esses processos são operacionalizados da seguinte forma:

“A técnica em si consiste, como sempre, em uma rede de fundações estrangeiras financia outra rede de ONGs do país nativo, para que esta última siga em conjunto as diretivas planejadas no exterior. A rede de ONGs locais aparenta agir por livre iniciativa, mas constitui, na verdade, uma rede de organizações criadas ou mantidas pelas fundações estrangeiras, que impõe aos nativos as estratégias externas. Pela falta de recursos locais, as ONGs nativas não podem fazer senão aquilo que lhes é ditado pelas fundações que lhes fornecem os recursos. Deste modo, devido à ausência de informação, no país alvo, sobre os detalhes deste método de trabalho, as fundações estrangeiras podem dar-se ao luxo de planejar a modificação, sem grande resistência, dos costumes, da moral e da legislação da nação, mesmo contra a vontade do povo nativo e sem que este tenha uma idéia das verdadeiras razões do que está acontecendo. Ao povo, e às autoridades civis e religiosas, é dada a impressão de que tudo é o resultado do destino natural e inevitável da história.” (A NOVA ESTRATÉGIA MUNDIAL DO ABORTO, p. 10)

Esta técnica, utilizada para financiar o aborto no Brasil, se aplica, igualmente, a todos os projetos emanados das “centrais globalistas”.
Com relação a rede de ONGs brasileiras, elas exercem um papel duplo: Por um lado atuam como braços operacionais das “centrais globalistas” e por outro como aparelhos privados de hegemonia, na expressão de Gramsci, para ocupação de espaços e hegemonia de pensamento visando a implantação do comuno-socialismo no Brasil.

Para fundamentar a ocupação de espaços nas mãos dos aparelhos privados de hegemonia, vejamos os dados que coligi a partir das informações do IBGE e IPEA. Em 2004 existiam no Brasil:

 276 mil Fundações e Associações sem fins lucrativos;
 1,5 milhão de pessoas trabalhavam nelas;
 R$ 17,5 bilhões/ano salários e remunerações;
 1/3 situadas em São Paulo e Minas Gerais:
 21% em São Paulo;
 13% em Minas Gerais.
 62% criadas a partir dos anos 90.
 US$ 36 milhões foram aplicados no Brasil pela Fundação MacArthur entre 1990 e 2002.

Hoje, este número ultrapassa a 500 mil, segundo informações da Associação Brasileira das Organizações Não-Governamentais (ABONG). As informações do IBGE e do IPEA desapareceram do domínio público, razão pela qual não foi possível atualizar os dados.

De onde vem todo esse dinheiro e qual a razão da Fundação MacArthur aplicar tamanhos recursos financeiros no Brasil?

A resposta de onde vem o dinheiro aponta para uma única direção: Para as organizações globalistas.

Quanto a razão dessa dinheirama toda ser despejada no país a resposta também é única. Vejamos o que nos diz o maior estudioso do assunto no Brasil.

“Toda a bibliografia existente sobre o Consórcio atesta que o objetivo dele é a instauração de uma ditadura socialista mundial.” (grifo meu)
E complementa:
“Mas pessoas que desconhecem essa bibliografia, e ademais acostumadas a raciocinar com base nos significados usuais das palavras, sem ter em conta a tensão dialética entre estas e o objetos reais que designam, encontram uma dificuldade medonha em entender que capitalistas e banqueiros possam desejar o socialismo.” (CARVALHO, pp. 82-3)

Afinal, socialismo não é propriedade estatal dos meios de produção? Capitalismo não é propriedade privada? Como haveriam os capitalistas de querer que o Estado tomasse suas propriedades? Estas são perguntas que Olavo faz e que todos nos também fazemos, não é mesmo?

Esclarecendo como e porque os capitalistas e banqueiros desejam o socialismo:

“À medida que os controles estatais iam crescendo em número e complexidade, as pequenas empresas não tinham recursos financeiros para atendê-los e acabavam falindo ou sendo vendidas a empresas maiores – cada vez maiores. Resultado: o ‘socialismo’ tornou-se mera aliança entre o governo e o grande capital, num processo de centralização do poder econômico que favorece ambos os sócios e não arrisca jamais desembocar na completa estatização dos meios de produção.”

E ainda:

“Os grandes beneficiários dessa situação são, de um lado, as elites intelectuais e políticas de esquerda; de outro, os ‘metacapitalistas’ – capitalistas que enriqueceram de tal modo no regime de liberdade econômica que já não podem continuar se submetendo às flutuações do mercado.”

“Eternamente garantidos pela burocracia estatal contra a liberdade de mercado e pela inviabilidade intrínseca do socialismo contra a estatização definitiva dos meios de produção, ainda são ajudados nos dois sentidos por um aliado fiel: a tecnologia, que, de um lado, aprimora os instrumentos de controle social ao ponto de poder determinar até a conduta privada dos cidadãos sem que estes possam nem mesmo perceber que são manipulados e, de outro, insufla criatividade no livre mercado de modo que este possa continuar crescendo mesmo sob controle estatal mais opressivo.”

“Assim, entende-se claramente por que as megafortunas do Consórcio têm estimulado e subsidiado o socialismo e a subversão esquerdista de maneira tão universal, obsessiva e sistemática, pelo menos desde os anos 40” (Carvalho, 88-9)

Este esclarecimento aborda tão somente o resultado do como e o porquê. Há que se estudar, as causas e fatores intrínsecos que levaram ambos os lados, outrora antagônicos, hoje parceiros financiadores e financiados.

O assunto é empolgante, complexo, desafiador e acima de tudo GRAVE, mas é dado o momento para interrompê-lo, mesmo estando distante anos-luz de esgotá-lo. Sequer chegamos a arranhá-lo, mas tendo em vista que o meu objetivo não foi de esgotar o assunto, mas o de despertar o leitor e motivá-lo no seu aprofundamento, espero ter alcançado tal desiderato.

De agora em diante é com você.

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JOSÉ SARAMAGO: Na morte de um homem mau

Morreu um homem amargo e mau, incapaz de sorrir, que se esforçava por tornar a sua Pátria amarga, como ele.

José Saramago era, de facto, um homem mau. Provava-o a sua cara vincada incapaz de exprimir um sorriso, prova-o a sua escrita prenhe de ódio e crítica aos valores mais normais e caros à civilização que o viu nascer, valores esses que ele, com as suas ideias, suas declarações e sua obra, renegou em Lanzarote. Será que no fundo, Saramago, para além do seu marcado azedume e soberba, tinha valores? Nunca o saberemos.

Repito, José Saramago era um homem mau. Que o digam os seus colegas, que em pleno período revolucionário foram vítimas de saneamentos selvagens. O homem, nessa época, tinha o “estribo nos dentes”, e era imparável algoz como sub-director do Diário de Notícias. Tinha por desporto arruinar a vida de quem não era comunista como ele.

Foram 87 anos de infecundidade, travestida de um aparente sucesso, revelado pelos livros que vendeu, e pela matreira estratégia de marketing que o conduziu ao Prémio Nobel, em detrimento de outros escritores Lusos, genuinamente com mais categoria e menos maldade crónica do que ele. Penso, por exemplo, no insuspeito Torga.

Tentei ler dois livros dessa personagem, para com honestidade poder dizer que, para além de não gostar dele como pessoa, o não considerava como um bom escritor, e que ofendia na sua essência a cultura Cristã da nossa Grei. Consegui apenas ler um, e o início de outro. A sua escrita, para além de ser incorrecta, era amarga como as cascas dos limões mais amargos. A sua originalidade era, afinal, o sinistro das suas ideias; o que, convenhamos, é pouco original. É mais fácil ser sinistro, provocador e mau, do que ter categoria, e valor. Saramago optou pelo mau caminho, como sempre, o mais fácil. E teve aparentemente sorte, na Terra, que a eternidade pouco lhe reservará.

Fiquei contente quando ameaçou (apenas ameaçou, porque na realidade a sua vaidade não lho permitia praticar), nunca mais pisar solo Pátrio. Uma figura como ele, é melhor estar longe da Pátria que em má hora o viu nascer. Afinal de que serve a este Portugal destroçado, um Iberistra convicto, ainda para mais, estalinista? Teria ficado bem por essas ilhas perdidas de Espanha, não fosse uma série de lacaios da cultura dominante “chorarem” por ele, por aqui por terras lusas, alimentando-lhe a sua profunda soberba.

Para além da sua obra escrita, de qualidade duvidosa e brilhantemente catapultada por apuradas técnicas comerciais que lhe conseguiram um Prémio Nobel da Literatura, (prémio com cada vez menos prestígio devido à carga política que contém), nada deixou em herança, para além de certamente muito dinheiro, o que é um contrasenso para um qualquer estalinista como ele. Mas a sua existência foi um perfeito logro. Foi uma existência desnecessária.

Saramago afastou-se da Pátria, e estou certo de que a Pátria, no seu todo mais puro, que não no folclore da “inteligentzia”, não teve saudades dele. Foi uma bandeira da esquerda ortodoxa, e também da esquerda ambígua, essa do Primeiro-Ministro que nos desgoverna. Dessa mesma esquerda que decidiu usar o nosso dinheiro, para trazer em avião da Força Aérea Portuguesa, os seus restos inanimados para Portugal, a expensas de todos nós, e infamemente coberto com a Bandeira Nacional. Um Iberista, coberto com a Bandeira Nacional, que Saramago ofendeu vezes incontáveis, na essência da sua obra, e no veneno das suas declarações públicas. Era um relapso. Um indesejável.
Um homem que voluntariamente se afastou da sua Pátria, comentando-a de uma forma negativa no Estrangeiro, não é digno de nela entrar cadáver, coberto com a sua Bandeira. A bandeira de Saramago, era a do ódio, da arrogância, e da maldade praticada.

Mas os símbolos Nacionais estão hoje nas mãos de quem estão, e a representação das “vontades” Nacionais, está subordinada a quem está: à esquerda, tão sinistra como foi Saramago. Assim sendo, as homenagens que lhe fazem, incluindo os exagerados e ilegítimos dois dias de Luto Nacional, valem o que valem, e são apenas um acto de pura “camaradagem”, na verdadeira acepção da palavra. Quem nos desgoverna, pode cometer as maiores atrocidades, que ao povo profundo só resta pagar, e calar. Até ver.
Amanhã, Saramago mergulhará pela terceira vez nas chamas. A primeira, terá sido quando nasceu, e ao longo de toda a sua vida, retrato que foi de ódio e maldade pela sua imagem espelhados e espalhados; a segunda, terá sido quando o seu corpo ficou irremediavelmente inanimado, e estou certo de que entrou no Inferno, a confraternizar com o seu amigo Satanás; a terceira, amanhã, será quando o seu corpo inerte e sem alma, entrar para ser definitivamente destruído, no Crematório do Alto de S. João.

Será um maravilhoso e completo Auto de Fé. O Homem e a sua obra venenosa, serão queimados definitivamente nas chamas da terra, que nas da eternidade já o foram no dia em que morreu.

De Saramago recordaremos um homem que não sabia rir, que gostava certamente muito de dinheiro, e que o terá ganho, que era mau e vaidoso, e que o provou ao longo da sua vida, que quis viver longe da sua Pátria por a ela não saber ter amor, e que foi homenageado por meia dúzia de palhaços esquerdistas, “compagnons de route” coniventes com um dos últimos fósseis estalinistas, que ilustrava uma forma de estar na vida e na política sem alma, amoral, e que globalmente contribuiu para a destruição de toda uma Pátria, e suas tradições.

Ocorreu ontem, quando soube que este cavalheiro de triste figura tinha morrido, que estaria por certo no inferno, sentado com Rosa Coutinho, também lá entrado há poucos dias, à espera de Mário Soares e Almeida Santos, para os quatro juntos jogarem uma animada e bem “quente” partida de sueca…
O País está mais limpo. Um dos maiores expoentes do ódio e da maldade, desapareceu da superfície da Terra. Espero que a Casa dos Bicos, um dia possa ter melhor função, do que albergar a memória de tão pérfida personagem. As suas letras, estou certo de que cairão no esquecimento, ao contrário das de Camões, Torga ou Pessoa, entre muitos outros.

Apesar de tudo, e porque sou Católico (e porque a raiva não é pecado), que Deus tenha compaixão de tão grande pobreza, mas que se lembre fundamentalmente de nós, de todos os Portugueses íntegros que tentamos sobreviver com dificuldade, neste Portugal governado pelos amigalhaços do extinto, que apesar do luto em que fingem estar, mas que na verdade não sabem viver, continuam a todo o custo a viver o enorme bacanal que arruina Portugal…

No fundo, no fundo, e porque as palavras as leva o vento, que Deus tenha piedade de tão grande pobreza! Cabe-nos perdoar. Mas não temos que esquecer!

António de Oliveira Martins – Lisboa

Nota: Saramago morreu no dia 18/06/2010 e cremado no dia 20/06/2010. Era ateu.

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