O PODER DA FÉ

Por Anatoli Oliynik

A modernidade suprimiu do ser humano dois dos mais preciosos dons naturais: a percepção e o significado da vida real e concreta e a sensibilidade para o singelo. Assim, insensível, o homem perdeu, por consequência, outros dons inatos a sua natureza, como a acepção das palavras e a beleza de expressão de pensamentos. No plano sobrenatural, a fé.

Louis Charles Athanaïse Cécile Cerveaux Prosper talvez seja o melhor exemplo que podemos encontrar de que é possivel viver num ambiente pós-moderno e ainda assim, conservar a sua natureza espiritual.

Quem foi ele e qual foi seu legado?

Foi um diplomata, dramaturgo e poeta francês, membro da Academia Francesa de Letras e galardoado com a grã-cruz da legião de honra. É considerado importante escritor católico. Seu nome artístico: Paul Claudel.

Claudel nasceu em Aisne, na localidade de Villeneuve-sur-Fère. Sua família paterna era de fazendeiros e funcionários públicos, mas seu pai, Louis Prosper, lidava com hipotecas e transações bancárias. Sua mãe, Louise Athanaïse Cécile Cerveaux, era de uma família muito católica, também de fazendeiros, de Champagne, onde Paul viveu na infância.

Apesar de ter pensado em dedicar-se à vida monástica, com os monges beneditinos, ele acabou entrando para o corpo diplomático da França, em que serviu de 1893 a 1936. Foi vice-cônsul em Nova Iorque, em Boston, Praga, Frankfurt e Hamburgo. Foi cônsul na China (1895-1909).

Em março de 1906, casou-se com Reine Sainte-Marie Perrin e teve filhos com ela, em um casamento feliz.

Foi ‘ministro plenipotenciário’ no Rio de Janeiro (1916) e em Copenhagen. Foi embaixador em Tóquio, Washington e Bruxelas.

O período de sua missão no Brasil coincidiu com a Primeira Guerra Mundial, e ele supervisionou o envio de alimentos da América do Sul para a França.

Aposentou-se em 1936 e viveu em seu castelo em Brangues (Isère) até sua morte, em 1955.

Seu legado:

Até os 18 anos, Paul era ateu. Na noite de Natal de 1886, ao ouvir o coro da catedral de Notre-Dame de Paris, ele se emocionou ao ver que todos tinham fé e oravam para um Deus que até então ele não queria conhecer, e então, subitamente, converteu-se ao catolicismo.

Sobre este acontecimento, Claudel assim se expressou:

A noite de Natal do dia 25 de Dezembro de 1886

“Assim se passavam as coisas com aquele pobre rapaz que, no dia 25 de Dezembro de 1886, entrava na catedral de Notre-Dame de Paris, para ali assistir ao ofício divino do Natal. Começava eu então a escrever, e tive a impressão de que poderia, com superior diletantismo, encontrar nas cerimônias católicas, um meio adequado e matéria para alguns trabalhos. Nesta disposição de espírito, apertado e empurrado pela multidão, assisti à Missa cantada, com moderada alegria. Como nada mais interessante havia a fazer, voltei de novo à tarde para assistir às Vésperas. Os meninos do coro da catedral, de roquetes brancos, e os alunos do Seminário de S. Nicolau du Chardonnet, que os auxiliavam, tinham justamente começado a cantar qualquer coisa em que mais tarde reconheci o Magnificat. Eu estava de pé no meio da multidão, junto da segunda coluna, perto da entrada para o coro, à direita, do lado da sacristia.
E ali se deu o acontecimento que domina toda a minha vida. Num momento, o meu coração sentiu-se tocado, e tive fé. Tive fé com tal intensidade de adesão, com tal exaltação de todo o meu ser, com uma convicção tão poderosa, com tal segurança, que não ficava margem para nenhuma espécie de dúvida. E, desde então, todos os livros, todos os raciocínios, todas as eventualidades de uma vida agitada não conseguiram abalar a minha fé; mais do que isso, nem sequer conseguiram tocar-lhe. Subitamente, apoderou-se de mim o sentimento fremente da inocência, da perpétua filiação divina: uma revelação inefável. Quando tento reproduzir, como faço frequentemente, o decorrer dos minutos que se seguiram a este momento excepcional, encontro sempre os seguintes elementos que, todavia, representam um único raio, uma única arma, de que a Providência divina se serviu para alcançar e abrir o coração de um pobre filho desesperado: «Que felizes são, de fato, os que crêem! E se fosse verdade? verdade! — Deus existe; está aqui presente! É alguém! É um ser tão pessoal como eu! — Ama-me! chama por mim!» Invadiram-me as lágrimas e os soluços e o cântico tão delicado do «Adeste» aumentou ainda a minha comoção.”

E culmina na mais exuberante demonstração de fé:

“Ó meu Deus, lembro-me dessas trevas em que estávamos face a face; nessas sombrias tardes de inverno em Notre-Dame. Eu, sozinho, bem no fundo da igreja, alumiando a face do grande Cristo de bronze com uma vela de cinco vinténs. Todos os homens estavam contra nós – a ciência, a razão – e eu não respondia nada. Só a fé estava em mim, e eu Vos olhava em silêncio; como um homem que prefere o seu amigo.”

Vejamos, pois, a acepção das palavras de Paul e avaliemos a força de cada uma delas, só possível para pessoas que mantém incólume a sua sensibilidade e a sua fé, acima de tudo.

A invocação: (“Ó meu Deus”); Aqui Claudel não só se recorda, mas confessa que vivia nas trevas: (“Lembro-me dessas trevas em que estávamos face a face nessas sombrias tardes de inverno em Notre-Dame”);

A conversão é individual e solitária, é preciso penetrar dentro de si mesmo, ir até o fundo da alma para perceber Deus e assim poder religar o espirito a Ele: (“Eu, sozinho, bem no fundo da igreja”);

Claudel mostra o quanto o ser humano é insignificante e infinitamente pequeno diante de Deus (“alumiando a face do grande Cristo de bronze com uma vela de cinco vinténs.”);

Claudel fala do ateísmo do mundo moderno e da sua fé inabalável e, novamente, ele penetra dentro de si mesmo e percebe que o único e verdadeiro amigo, aquele que jamais o abandonará está em Deus, e escolhe seu caminho, definitivamente, contra tudo e contra todos: (“Todos os homens estavam contra nós – a ciência, a razão – e eu não respondia nada. Só a fé estava em mim, e eu Vos olhava em silêncio; como um homem que prefere o seu amigo.”). Esta é uma das passagens mais lindas, profundas e exuberante de fé.

Aqueles que desejarem ouvir o Magnificat e ler o primeiro artigo que escrevi a respeito de Paul Claudel, é só clicar no link que se segue:

http://blogdoanatolli.blogspot.com.br/2012/12/a-conversao-de-paul-claudel.html

Espero que o exemplo de Paul Claudel desperte em você a sensibilidade para acepção das palavras e para a beleza de expressão de pensamentos e, acima de tudo, para a convicção de que a fé opera milagres. Ela só precisa que você abra a porta para o transcendente e permita que o Espírito Santo penetre por ela.

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