TOTALITARISMO

TOTALITARISMO
Por Anatoli Oliynik

“Penso que a espécie de opressão da qual os povos democráticos estão ameaçados não se assemelhará a nada do que a precedeu no mundo; nossos contemporâneos não encontrariam a sua imagem nas recordações que tenham. Em vão procuro de minha parte uma expressão capaz de reproduzir exatamente a idéia que me vem a respeito; os velhos termos, despotismo e tirania, não satisfazem mais. A coisa é nova; é preciso, portanto, procurar defini-la, pois eu não sei como denominá-la”. J.L. Talmon (1916-1980)

A definição de totalitarismo e sua abrangência entre os regimes políticos, sejam eles civis ou militares, podem variar de autor para autor. Vamos rever aqui, embora superficialmente, as teorias clássicas bem como a extensão do conceito totalitário:

Totalitarismo é um sistema de governo, geralmente civil, em que um grupo num país centraliza todos os poderes políticos e administrativos. É o oposto do liberalismo que defende a propriedade privada, as reformas sociais graduais, as liberdades civis e a liberdade de mercado. É o oposto, também, ao conservadorismo cuja doutrina enfatiza a tradição, a liberdade individual, a propriedade privada e o direito natural.

Como se pode ver, o conceito totalitário designa um modo de fazer política, muito extremista, que se embasa na mobilização de uma sociedade inteira ao mesmo tempo em que elimina a sua autonomia, misturando a sociedade e a política em um mesmo grupo, onde todos fazem parte do partido, sendo por ele controlados. Exemplo: Cuba onde existe um único partido comandado por Fidel e seu irmão há mais de meio século e o Brasil onde existem mais de três dezenas de partidos políticos “faz de conta”, mas que todos eles gravitam em torno de um único partido que dita todas as regras.

O primeiro vestígio prático de idéias totalitárias verifica-se no jacobismo da Revolução Francesa, que exigiu a submissão total dos cidadãos aos seus princípios, ameaçando de eliminação física todos os inconformistas, e que proibiu a formação de partidos de oposição.

O totalitarismo é um fenômeno típico da modernidade revolucionária. A denominação veio a ser dada por Benito Mussolini (1883-1945), num discurso do Scala de Milão, quando afirmou: “Tutto nelo Stato, niente contro lo Stato, nulla al di fuori delo Stato” [Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado].

As duas principais teorias sobre totalitarismo foram formuladas por, Hannah Arendt em 1951 e por Carl J. Friedrich e Zbigniew K. Brzezinski em 1956.

Segundo Hannah Arendt (1906-1975), socióloga e cientista política norte-americana de origem alemã, “o Totalitarismo é uma forma de domínio radicalmente nova porque não se limita a destruir as capacidades políticas do homem, isolando-o em relação à vida pública, como faziam as velhas tiranias e os velhos despotismos, mas tende a destruir os próprios grupos e instituições que formam o tecido das relações privadas do homem, tornando-o estranho assim ao mundo e privando-o até de seu próprio eu”.

Carl J. Friedrich (1901-1984) e Zbigniew K. Brzezinski (1928-….) definem o Totalitarismo com base nos traços característicos encontrados nos regimes totalitários, que são os seguintes:

1. uma ideologia oficial que diz respeito a todos os aspectos da atividade e da existência do homem e que todos os membros da sociedade devem abraçar, e que critica, de modo radical, o estado atual das coisas e que dirige a luta pela transformação;

2. um partido único de massa dirigido tipicamente por um único ditador, estruturado de forma hierárquica, com uma posição de superioridade ou de mistura com a organização burocrática do Estado, composto por pequena percentagem da população onde uma parte nutre apaixonada e inabalável fé na ideologia e está disposta a qualquer atividade para propagá-la e atuá-la;

3. um sistema de terrorismo policial que apóia e ao mesmo tempo controla o partido, faz frutificar a ciência moderna e especialmente a psicologia científica de uma forma própria, não apenas contra os inimigos plausíveis do regime, mas ainda contra as classes da população arbitrariamente escolhidas;

4. um monopólio absoluto sobre todos os meios de comunicação de massa, como a imprensa, o rádio, a televisão e o cinema, nas mãos do partido;

5. um monopólio absoluto de todos os instrumentos da luta armada nas mãos do partido;

6. um controle e uma direção central de toda a economia através da coordenação burocrática das unidades de produtivas, antes independentes.

A combinação habilidosa de propaganda e de terror, tornada possível graças à organização de massa, confere aos regimes totalitários uma força de penetração e de mobilização da sociedade qualitativamente nova em relação a qualquer regime autoritário ou despótico do passado e torna-os por isso um fenômeno político historicamente único.

Raymond Aron (1905-1983) sociólogo, filósofo e jornalista francês coloca entre as características do Totalitarismo um partido que monopoliza a atividade política, uma ideologia que anima o partido e se torna verdade oficial do Estado, e, através dos controles totalitários sobre a sociedade, uma politização de todos os erros ou insucessos dos indivíduos e, portanto a instauração de um terror ao mesmo tempo policialesco e ideológico.

O Estado totalitário atua sobre a sociedade de massa, pela técnica da propaganda e afirma possuir a verdade absoluta e assume responsabilidade pelo corpo e pela alma dos membros, e tem, com elas, sua bíblia, sua ortodoxia, seus heréticos e sua inquisição, impondo a sua ideologia.

Três aspectos são importantes a considerar nos Estados totalitários do nosso tempo:

1. Formação de uma casta dominante que tem nas mãos o aparelhamento do Estado;
2. Polícia política;
3. Supressão total da liberdade de pensamento e monopólio estatal da cultura, do ensino e dos meios de comunicação de massa.

Como o leitor pode observar, as duas teorias sobre o totalitarismo foram formuladas há mais de meio século, porém praticadas de longínqua data e que ganha forte impulso no Brasil. De lá para cá as técnicas e os meios evoluíram e se sofisticaram, mas os fins colimados, não. Cabe, portanto, a cada cidadão brasileiro, contrário a essa forma brutal de governo, a eterna vigilância e ação contrária.

A vigilância não implica somente na percepção do que ocorre a nossa volta no dia-a-dia, mas na organização e formação de uma militância conservadora atuante, pois a sua falta poderá nos transformar, em curto espaço de tempo, numa Cuba, a exemplo da Venezuela, Argentina, Bolívia e Uruguai cujos ditadores civis são muito íntimos da nomenklatura totalitarista que se instalou no país a partir de 1995 e que vem recrudescendo a cada nova eleição.

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