DISCUSSÃO e OPINIÃO

DISCUSSÃO E OPINIÃO

A discussão contém em germe um elemento que tem causado no mundo suicídios, apostasias e revoluções, dentre outros.
A discussão não nos espanta porque cada um de nós já presenciou, centenas de vezes, discussões que atingem paroxismos por causa de objetos insignificantes. O que surpreende é a enorme desproporção entre o objeto e a veemência do litígio. Durante a discussão uma estranha atmosfera se interpõe entre as pessoas, produzindo fantásticas refrações, e daí resulta que o objeto avulta como se fosse uma montanha enorme erguida no meio dum caminho.
Qual seria o motivo de fenômeno no próprio sujeito? Estaria em jogo o prestígio de indivíduo bem informado? Em parte, talvez.
Há sempre satisfação em estar bem informado, a par das coisas, inserido nos fatos, como também uma alegria ainda maior em ser o próprio portador da informação, sobretudo quando esta é nova.
Gostamos de carregar novidades e por isso é compreensível que tenhamos satisfação em colher e guardar informações. Mas há situações em que essa consideração não se aplica senão parcialmente.
A razão do fenômeno não está no objeto, não está no sujeito, não está no prestígio intelectual então qual seria o ponto de uma discussão?
O sujeito defende uma opinião e o ponto nevrálgico do sujeito está na vontade .
A opinião é uma atitude que o sujeito toma diante do objeto sem que o objeto importe. Não se mede pelo objeto, não tem proporção com ele. Precisa do objeto para sair do sujeito e voltar ao sujeito. Ter razão importa sem que o objeto importe.
A opinião é segregada pela vontade; não vem do conhecimento, mas de um apetite. O mecanismo da opinião pode ser descrito como uma interposição da vontade entre a inteligência e o objeto. A justa proporção com o objeto fica prejudicada, só podendo existir quando a inteligência está em livre confronto com o objeto, isto é, na contemplação.
Necessário tornar bem clara a imensa gravidade desse problema e a importância vital do restabelecimento, na estrutura da pessoa, desse respeito pelo objeto, dessa abertura para fora pela qual tanto a inteligência como a vontade aspiram à suma objetividade. O grande desvio do pensamento moderno tem origem nessa inversão interior, pela qual a vontade se arroga um direito de conquista onde somente à inteligência cabe o primado. Todos nós, mais ou menos europeus, estamos impregnados de idealismo filosófico até a medula dos ossos, estamos convencidos que nossa dignidade mais alta reside nesse subjetivismo obstinado que tenta reduzir todas as coisas do céu e da terra a meia dúzia de opiniões. Muita gente pensa que isso é grandeza e marca de caráter e que a personalidade humana se define por esse fechamento diante dos objetos e se engrandece por essa deformação interior. Diante dos objetos mais simples o homem liberal, que agasalha suas opiniões, que desconfia de tudo que não seja o morno recôncavo de sua interioridade, cai em guarda numa posição crispada; a vontade mete-se de permeio entre a porta dos sentidos e a inteligência, e como seu caminho é mais curto, ou porque seja ela mais ágil, sua sugestão chega antes do conceito e gera o preconceito. A inteligência perde a liberdade e a vontade então convence o sujeito que ele é um livre-pensador.
É nessa questão nevrálgica da liberdade que a vontade mais se excita, e, no diálogo interior, clama que lhe pertence exclusivamente a decisão nessa matéria. Como na vida exterior vive sendo ofendida, esbarrando, chocando-se, atritando-se, a vontade procura se desforrar e volta-se para dentro. Volta-se contra o próprio sujeito, enrola-se no cerne nobre da pessoa e morde a inteligência. A liberdade psicológica e voluntarioso, nascida no conflito com as objetividades, substitui a liberdade ontológica que tem raiz na adequação entre a inteligência e o ser. O primado da inteligência é usurpado, e então, em vez do reto juízo, nasce a opinião.
A opinião é uma categoria pobre, e por isso dizia Fédon (ou Fedão): “Almas decaídas e impuras têm a opinião por alimento e não a verdade”.

Texto extraído do livro “A Descoberta do Outro” de Gustavo Corção contendo algumas adequações realizadas pelo compilador. A.O. (01/05/2015)

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