RAZÃO CIVILIZATÓRIA

RAZÃO CIVILIZATÓRIA

Há uma razão profundamente civilizatória para que certos temas, política, religião e futebol, sejam tradicionalmente evitados nas conversas que ainda desejam preservar algum vestígio de serenidade intelectual. Não porque lhes falte importância, mas precisamente porque lhes sobra paixão. E onde a paixão se torna absoluta, a razão costuma entrar em estado de exílio.
Nesses territórios, o homem raramente pensa, ele adere. Não argumenta, professa. Não examina, defende. A inteligência, que deveria funcionar como instrumento de investigação, converte-se em mera advogada de convicções previamente escolhidas pela emoção, pelo pertencimento tribal ou pela herança cultural. O indivíduo deixa de buscar a verdade e passa apenas a proteger símbolos afetivos, como quem guarda um altar invisível dentro da própria vaidade.
A política talvez seja o exemplo mais evidente dessa degeneração contemporânea. Ela deixou, em muitos casos, de ser a administração racional da vida pública para tornar-se espetáculo psicológico de idolatria coletiva. Os candidatos já não são analisados como gestores potenciais, mas consumidos como personagens emocionais. Criou-se uma estética eleitoral em que carisma pesa mais que caráter, retórica mais que coerência, e marketing mais que moralidade.
É precisamente aqui que surge uma sugestão incômoda, porém intelectualmente honesta: talvez fosse mais útil abolir parte da propaganda eleitoral e substituí-la por um rigoroso exame público da vida de cada candidato.
Não um escândalo midiático seletivo, essa caricatura histérica da investigação moderna, mas um verdadeiro pente fino civilizatório. Uma análise séria do histórico financeiro, das incoerências morais, das relações obscuras, dos favorecimentos silenciosos, das contradições patrimoniais, das alianças oportunistas e, sobretudo, da integridade psicológica daqueles que desejam ocupar posições de poder.
Porque há algo de absurdamente contraditório numa sociedade que exige antecedentes criminais de um porteiro, de um motorista ou de um funcionário comum, mas entrega o comando de milhões de vidas a indivíduos cuja trajetória real permanece escondida atrás de jingles, slogans e debates coreografados.
A propaganda eleitoral moderna não raramente funciona como cosmética moral. Ela não revela o candidato, ela o maquilha. Produz-se uma figura higienizada, sentimentalmente calculada, treinada para parecer humana diante das câmeras enquanto o verdadeiro indivíduo permanece cuidadosamente oculto sob camadas de assessoria política.
E talvez o problema mais grave seja precisamente este: o eleitor contemporâneo tornou-se emocionalmente vulnerável à encenação. Vota-se por identificação estética, por ressentimento compartilhado, por frases de efeito, por fidelidade partidária quase religiosa. Poucos investigam. Poucos duvidam. Poucos suportam a tarefa intelectualmente cansativa de separar imagem de substância.
Nietzsche observava que os homens preferem acreditar a pensar, porque pensar exige coragem. E a política moderna compreendeu isso com assustadora eficiência. Ela não busca cidadãos lúcidos, busca torcedores ideológicos.
O resultado é uma democracia frequentemente conduzida não pela lucidez coletiva, mas pela manipulação emocional em larga escala.
Talvez, portanto, uma verdadeira reforma política não começasse apenas nas urnas, mas na substituição da propaganda pela transparência radical. Menos marketing. Mais investigação. Menos discursos cuidadosamente ensaiados. Mais exposição objetiva da trajetória real daqueles que desejam governar.
Porque um povo que conhece profundamente quem o governa já deu um passo gigantesco para deixar de ser massa e começar, finalmente, a tornar-se sociedade.
Oliver Harden

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